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Zodiac (2006)

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Mensagem  Convidad 27/2/2008, 15:58

Zodiac (2006)
David Fincher é daqueles realizadores que em poucos filmes gerou um culto na comunidade cinéfila e, como sempre nesses casos, também uma horda de detractores. Dito isto, David Fincher é sem dúvida um cineasta que não deixa indiferente, cada um dos seus filmes sendo ansiosamente esperado como uma promessa de uma experiência singular e importante para a 7ª Arte. Assim, o anúncio do filme; Zodiac;, cinco anos após a semi-desilusão que representou; Sala de Pânico; e após uma miríade de projectos que optou por não dirigir (;Batman; O Início;0;Missão Impossível I;A Dália Negra,) pôs fim a uma insuportável espera para ver finalmente o maestro de regresso às salas de cinema.

Zodiac apresentava-se como um filme em linha directa com o seu maior título de glória, o seminal e inesquecível ;Seven; Sete Pecados Mortais;, mil vezes copiado e nunca ultrapassado. História de serial killer, caça obsessiva por personagens no limite, radiografia negra dos nossos demónios interiores, atmosfera claustrofóbica e imagem estilizada ao máximo, eis o que veio logo à cabeça do espectador ávido de ser surpreendido no cinema por obras fortes e perturbadoras. Mas quem estava à espera de um Seven; pode desde já tirar essa ideia da cabeça porque esta história verídica do assassino em série auto-denominado The Zodiac que aterrorizou São Francisco no final dos anos 60/início dos 70 e que nunca foi encontrado, levando ao limite da obsessão várias pessoas envolvidas na investigação (o desenhista Robert Graysmith, o inspector David Toschi, o jornalista Paul Avery), é tudo menos um thriller policial tradicional e vai portanto surpreender profundamente tanto os aficionados de filmes policiais como os incondicionais do trabalho do realizador. David Fincher está de regresso e Zodiac; é simplesmente um dos filmes do ano.

Zodiac; está de facto a mil léguas daquilo que estamos habituados a ver no subgénero que é o filme de serial killer. Deixando de lado a estrutura habitual do thriller baseado quase exclusivamente na noção de suspense;Zodiac; faz prova de uma ambição bem diferente e muito mais arriscada. A óptica de David Fincher é assim logo à partida virada para uma abordagem realista, fazendo do seu filme um documentário ficcionado, ultra preciso e documentado. Poderá portanto dizer-se que, por uma vez, a menção;Inspirado de factos verídicos;, que tanto gostam os estúdios de Hollywood e que a maioria das vezes serve apenas de caução moral para filmes insípidos e falhados, é levada à letra e sustém todo o projecto de mise en scène de Fincher. O perfeccionismo doentio do realizador é já conhecido de todos e encontrou neste filme o terreno de experimentações ideal para levar até ao limite o carácter profundamente obsessivo e antropológico de todos os seus grandes filmes (O Jogo e Sala de Pânico; não se enquadram evidentemente aqui).
Zodiac; pode ser claramente dividido em duas partes, sendo a primeira dedicada sobretudo ao retrato de uma época (neste caso os anos 70) e a segunda, à busca da verdade por um Robert Graysmith (excepcional Jake Gyllenhaal) literalmente consumido pela sua investigação. Nessa primeira parte, David Fincher convida-nos portanto a partilhar intimamente o sentimento de medo que se apoderou da população de São Francisco aquando das acções do Zodiac. Tendo vivido a sua infância precisamente nessa época, eis uma primeira chave que permite entender a dedicação de Fincher a este projecto. Como terão percebido, a figura do serial killer serve então antes de tudo de revelador e não interessa per se o cineasta.

Aqui, a reconstituição dos anos 70 revela-se fundamental para a imersão do espectador e Fincher e sua equipa conseguiram concretizar esse facto na perfeição. Cenários, carros, roupas, atitudes, vocabulário, nada foi deixado ao acaso. Desde o mais insignificante acessório (muitas vezes objectos reais dos acontecimentos) até às interpretações dos actores, foi desenvolvido um trabalho de minúcia e de credibilização propriamente alucinante. É simples, somos literalmente transportados para os anos onde o Zodiac aterrorizou os Estados Unidos, graças a essa abordagem naturalista de uma mestria como raramente se viu num ecrã de cinema (veremos ao pormenor como a realização milimétrica de David Fincher participa também dessa óptica imersiva numa terceira parte).
Esta primeira parte pode então ser vista quase como uma longa introdução ao coração do filme que será o percurso obsessivo de Robert Graysmith. Por isso, somos muito rapidamente absorvidos por um ritmo narrativo que não esperávamos tão frenético. Essa urgência resulta sobretudo do facto de Fincher nunca tentar ser explicativo e inteligentemente pôr-nos ao mesmo nível que as personagens sem nunca estarmos em posição de saber mais do que elas ao longo do filme, por forma a sentirmo-nos igualmente perdidos, impotentes ou desesperados à medida que a investigação policial se vai arrastando. Somos assim progressivamente bombardeados de informação, seguindo-se várias frentes ao mesmo tempo, a investigação policial com a dupla de inspectores David Toschi/William Armstrong (respectivamente um alucinante de convicção Mark Ruffalo e um seguro Anthony Edwards), a actuação dos jornalistas nomeadamente no seio do San Francisco Chronicle com o iconoclasta Paul Avery (um implicado Robert Downey Jr.) e o apagado Robert Graysmith (que se revelará verdadeiramente na segunda parte do filme) e todos os acontecimentos da altura, desde os homicídios do Zodiac até às reacções da população.

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Fincher escolhe portanto mostrar-nos todas as dificuldades da investigação (problemas de comunicação entre os departamentos policiais de cada cidade, limitações dos meios logísticos da época, ingerência prejudicial dos jornalistas, etc.) em vez de capitalizar num suspense artificial e banal já visto e revisto. E a pormenorização cirúrgica dessa investigação e das suas consequências no inconsciente colectivo revela-se o melhor veículo de sensações e de reflexão interior, o que nas mãos de outro realizador arriscava-se a ser um ensaio formatado, enfadonho e sem vida. Daí advém então a filiação evidente ao cinema de investigação dos anos 70 em fase com os acontecimentos da sociedade, nomeadamente ;Os Homens do Presidente; de Alan J. Pakula com o qual Zodiac; partilha esse naturalismo absoluto e rigor informativo, sem todavia abdicar de uma verdadeira e essencial abordagem cinematográfica, aspecto onde Fincher atinge aqui patamares ainda inexplorados, renovando por si só todo um género ao redefinir os seus códigos visuais e narrativos. Nesse aspecto, é então curioso que Zodiac; nos faça relembrar um fabuloso filme sul-coreano de 2003 irremediavelmente inédito em Portugal, o assombroso;Memories of Murder de Bong Joon-Ho, o realizador que tem traumatizado os Festivais, inclusive o Fantasporto deste ano, com o não menos bombástico;The Host;. Retratando também o caso verídico de um serial killer que aterrorizou na década de 80 uma província da Coreia do Sul sem nunca ter sido apanhado,;Memories of Murder; abordava o género três anos antes da mesma maneira realista e obsessiva, sem efeitos e muito próxima das suas personagens, falando em filigrana da condição político-social da altura do seu país e das contradições interiores dos seus compatriotas através da condição de revelador da figura de um assassino em série. Estas influências ou semelhanças voluntárias ou não poderão atenuar a condição de filme totalmente inovador de Zodiac; mas seria esquecer a personalidade única do seu realizador que contamina literalmente o filme e sobretudo uma segunda parte onde Fincher e Graysmith se fundem numa fuga para a frente e sem protecção, pondo tudo em jogo para desvendar o derradeiro mistério: dar uma cara ao mal absoluto.
A OBSESSÃO DO MAL
Ao concluir a sua crónica de época num impasse, o Zodiac assumindo-se cada vez mais como uma figura abstracta do mal, e após ter concretizado da melhor forma a imersão total do espectador, Fincher pode então recentrar o seu filme numa personagem até aqui propositadamente retraída. Robert Graysmith, autor do livro que inspirou o filme, revela-se rapidamente como o duplo virtual do realizador, os dois rapidamente obcecados por este mal sem rosto tão fascinante quanto aterrador.
O turbilhão de informação que até aqui marcou o filme vai ganhar a partir deste ponto contornos ainda mais exigentes, sendo que acompanhar a busca de Graysmith implica por parte do espectador que partilhe a mesma obsessão. Mas, mais uma vez, a inteligência de Fincher é que subtilmente o realizador já nos tem onde queria quando Graysmith decide retomar a investigação. Toda a frustração de não apanhar o famoso serial killer que assombra a primeira parte do filme contamina-nos com a mesma intensidade que as personagens e o facto de Graysmith partir novamente para uma busca desesperada opera como um alívio para o espectador, intimamente desejoso ele também de põr um rosto nesse nome de Zodiac. E deve ter sido isso que o próprio Fincher sentiu ao embarcar neste projecto, ir até ao limite do que era possível, compilar informação até mais não, pensar e repensar sem fim os pormenores e os relatórios. O cineasta compõe portanto uma segunda parte mais introspectiva, mais pessoal também, numa espécie de comunhão íntima com o espectador para atingir o mesmo objectivo, o qual sabemos à partida que será impossível de atingir de forma satisfatória.
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E é esta implicação por parte do realizador, comunicada frontalmente e de forma muito objectiva, que permite a esta segunda parte, ainda mais complicada de pôr em imagens do que a primeira, ser uma viagem fortíssima ao centro de um dos casos de polícia mais emblemáticos do século XX. Fincher consegue tornar empolgante e altamente visceral o facto de um homem comum passar o seu tempo a vasculhar papéis em caixas, a escrever em folhas todos os acontecimentos do caso ou ainda a partilhar as suas ideias sentado a uma mesa com quem o queria ouvir.

Construída em crescendo, esta segunda parte agarra-nos portanto pelas tripas, mesmo se mantém a abordagem subtil e controlada que Fincher escolheu para o filme. Apesar de sabermos que o assassino nunca foi encontrado, esta busca não é menos essencial no sentido em que, antes de estar em jogo a descoberta da verdade, é a sanidade mental de Robert Graysmith (e portanto de David Fincher) que está em primeira linha. Assumindo-se como um exorcismo doloroso, com o risco de perder tudo, esta busca é antes de tudo interior, como forma de conseguir encarar que o ser humano ainda é uma criatura viável, ainda mestre do seu destino, e não só à mercê de um mal que paira em cada canto. Daí que encontrar a verdade seja quase acessório, recuperar as suas convicções e a sua vida como eram antes da aparição do Zodiac é o derradeiro objectivo. A cena onde Graysmith finalmente se encontra frente a frente com quem pensa ser o famoso Zodiac, é então suficiente para seguir em frente, não há certezas mas a íntima convicção a que se chegou pelo caminho percorrido basta para continuarmos as nossas vidas, profundamente transformados por ter tocado de tão perto o que de mais maléfico pode existir no ser humano.
UM NOVO DAVID FINCHER
Mas reservámos para o fim o mais surpreendente e, em última análise, o que permite a este Zodiac; ser uma genuína obra-prima: a realização de David Fincher. O cineasta é também conhecido pela sua obsessão pela imagem, sendo sem dúvida um dos mais famosos experimentalistas da câmara em actividade. Fabuloso formalista, David Fincher sofre como todos os realizadores nessa condição, primeiro, de um ostracismo por parte da crítica que não aceitam filmes de autor superiormente realizados e, segundo, de privilegiar por vezes a técnica em detrimento do resto, o que é obrigatório quando se tratam de encomendas com argumentos próximo do zero (O Jogo; e ;Sala de Pânico; mais uma vez).
Restituindo na perfeição a textura da cidade e em particular de noite, o digital permitiu portanto concretizar esse objectivo essencial de nos transportar para uma época e de nos fazer partilhar os acontecimentos reais que o filme descreve. Assim Zodiac; é daqueles filmes raros onde a câmara, relativamente discreta, parece estar sempre no sítio certo, no ângulo certo, substituindo-se com uma fluidez brilhante ao nosso olhar. No entanto, Fincher recheia o filme de pequenos planos próprios do seu cinema, como curtos planos subjectivos, planos-sequências de todas as formas, travellings discretos que instalam a atmosfera. Neste filme, o cineasta percebeu que o fundamental era a câmara reflectir antes de tudo o ponto de vista, tratando-se de um filme coral onde precisamente se multiplicam as personagens e as suas acções. Filme extremamente dialogado, era imprescindível a câmara conseguir acompanhar o fluxo de informação, aqui particularmente denso, e ser ela a imprimir o ritmo ao filme, e não o contrário. Aposta sem dúvida conseguida, os planos adequando-se na perfeição às diversas situações relatadas, compactos e em cima das personagens nas reuniões de redacção por exemplo ou mais aérea e solta nas passagens de rua com a dupla de polícias. Nesse aspecto, a montagem do filme é também incrível de mestria e de precisão, sem dúvida um modelo do género.

Mas onde David Fincher vai calar todos os seus detractores com uma chapada sem mão é nas cenas esperadas envolvendo o Zodiac. Apesar da sobriedade que referimos, o excepcional sentido de atmosfera do realizador mantém-se intacto e está à vista de todos nas poucas cenas onde o serial killer intervém. Evitando qualquer tipo de efeito tradicional, o naturalismo dessas sequências é de gelar o sangue. A cena introdutória com um jogo de luz fabuloso entre os faróis dos carros, resultando numa matança fria e seca assustadora de realismo. A cena à beira do lago quando o Zodiac surge do nada e dirige-se como se nada fosse para as suas próximas vítimas vestido no fato que o celebrizou, acabando por esfaquear o casal num plano ao nível do chão e das personagens deitadas que nos deixa imaginar todo o horror da situação, traumatizados pelo grito inumano da mulher. E também a cena em plena noite na auto-estrada de uma mulher grávida com o seu bebé que apanham boleia do próprio Zodiac, onde numa única frase declamada de uma voz monocórdica e sem emoção tomamos consciência do terror vivido por uma potencial vítima da loucura humana. Com um grande trabalho do director da fotografia Harris Savides, estas cenas são paradigmáticas da visão de David Fincher, o real é o mais assustador mas quem diz real, não diz realização banal, pelo contrário, essa óptica obriga a um nível de exigência ainda mais elevado, mais precisão, mais subtileza, composição do quadro milimétrica, para transmitir a atmosfera e os sentimentos vividos pelos protagonistas. Verdadeira lição de cinema;Zodiac; é assim a redefinição de todo um género.

É um filme indispensável, verdadeira janela aberta sobre um período conturbado da História dos Estados Unidos de uma densidade e inteligência sem equivalentes no cinema ocidental. Um filme que obriga a vários visionamentos para apreender toda a informação dispensada e toda a experiência de vida proporcionada. Esperemos só agora que a habitual alternância do cineasta entre obra-prima e filme dispensável não se verifique e que o seu próximo;The Curious Case of Benjamin Button, a estrear no final de 2008, seja uma obra-prima do calibre deste Zodiac.

NOTA: 10/10

Fonte: FanatiCine

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