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Homem-Aranha 3 (2007)

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Mensagem  Convidad 27/2/2008, 09:50

Homem-Aranha 3 (2007)



O filme de Super-Heróis é agora presença obrigatória nos ecrãs de cinema do mundo inteiro quando começa a temporada dos grandes blockbusters vindos de Hollywood. Se a DC Comics ainda só está a começar a ressuscitar os seus dois franchises emblemáticos que são Batman e o Super-Homem (o brilhante “Batman Begins” de Christopher Nolan e o semi-convincente “Superman Returns” de Bryan Singer), a célebre Marvel tem transposto para o grande ecrã o seu vasto catálogo de heróis a um ritmo frenético e, visto o resultado, até se diria demasiado frenético. De facto, se excluirmos os bons começos das sagas “X-Men” e “Blade” e o atípico “Hulk” de Ang Lee, pode-se dizer que as adaptações da Marvel só resultaram em autênticas bostas fílmicas. “Daredevil”, “X-Men 3”, “Blade: Trinity”, “The Punisher”, “Elektra”, “Fantastic Four” e “Ghost Rider” são os exemplos da incompetência de uma produtora em saber entregar os seus fabulosos comics a uns argumentistas ou realizadores dignos desse nome.

Felizmente, existe uma bela excepção a essa regra, a saga “Spider-Man”, para a qual os fãs bem podem agradecer a um único homem: o grande Sam Raimi. O primeiro filme foi a concretização de um sonho para todos os fãs, sonho esse que já todos pensávamos impossível de realizar. E o “Homem-Aranha 2” ultrapassou todas as expectativas, assumindo-se simplesmente como o melhor filme de Super-Heróis jamais feito.

Por isso, todos os espectadores, e sobretudo os mais exigentes fãs, esperavam que este 3º episódio fosse ainda mais longe e as expectativas não poderiam estar mais altas.

Dito isto e agora que o filme estreou simultaneamente pelo mundo inteiro com um sucesso de bilheteira sem precedentes, é engraçado verificar que a unanimidade da qual foi objecto Sam Raimi até aqui (sobretudo com o segundo filme da saga) é agora violentamente contestada, e em primeiro lugar por muitos fãs do realizador e da personagem. “Homem-Aranha 3” seria portanto uma profunda desilusão, um filme imbecil e ridículo indigno dos dois primeiros, uma sucessão de efeitos especiais vazios de sentido, uma palhaçada à semelhança dos piores filmes de Super-Heróis da actualidade? Como já o vamos ver, “Homem-Aranha 3” é precisamente o oposto destas tristes afirmações, representando pura e simplesmente a conclusão brilhante e enorme de uma trilogia impressionante que já marcou a História do blockbuster moderno e entronizou Sam Raimi na categoria dos cineastas mais sobredotados a oficiar em Hollywood.


Homem-Aranha 3 (2007) Spiderman3_01



Se “Homem-Aranha 3” é um fabuloso sucesso artístico, devemo-lo principalmente a dois factores: uma ambição desmesurada em termos técnicos e narrativos e uma coerência em todos os aspectos perfeita na evolução das personagens e no crescendo emocional quando posto em correspondência com os dois primeiros episódios da saga.

Numa primeira abordagem, poderá dizer-se que “Homem-Aranha 3” é de facto o mais ambicioso dos três filmes que contam a vida de Peter Parker. Mais ambicioso porque o arco narrativo é aqui desmultiplicado pela presença de muito mais personagens, obrigando Sam Raimi a gerir um bem mais complexo estudo íntimo das figuras em presença. Se podemos reconhecer que o filme não escapa a algumas facilidades narrativas (as circunstâncias que levam à transformação de Flint Marko em Sandman, a chegada do simbiota alienígena logo ao pé do Peter Parker, a presença na hora e no local certos do Eddie Brock para se transformar em Venom, eis alguns exemplos que poderão parecer coincidências a mais), essa constatação que poderia prejudicar o desenrolar do filme é magistralmente aniquilada pelo turbilhão emocional no qual o cineasta transporta as suas personagens e, por extensão, o espectador, desmarcando-se cada vez mais das regras intrínsecas das produções milionárias sem alma e regressando às características que fizeram do comic-book original um marco da História da BD norte-americana.



Assim, “Homem-Aranha 3” é facilmente o filme mais comic-book da saga e também aquele que corresponde melhor ao cinema de Sam Raimi, esse cinema que tanto nos fascinou no passado quando o realizador fazia obras-primas com filmes de género sem orçamento na maior indiferença imaginável.

Da primeira à última imagem, Sam Raimi demonstra portanto que chegou finalmente a uma fusão total com a personagem e as suas experimentações fílmicas dos dois primeiros episódios ganham aqui uma envergadura fenomenal. Definitivamente liberto de qualquer contingência, tendo provado aos seus produtores que as suas escolhas foram desde o princípio acertadas, Sam Raimi aparece aqui completamente solto com uma câmara sempre em movimento, a lembrar os bons velhos tempos do “Evil Dead II” e do “Darkman”, e em constante equilíbrio entre o burlesco (o seu marco de fabrico) e o dramático, um trabalho arriscado de equilibrista que sempre caracterizou os seus melhores filmes e que muitos fãs não parecem ter-lhe perdoado aqui. Sem dúvida uma pena porque é precisamente este ponto em particular que permite ao cinema de Sam Raimi e ao universo do Spider-Man fusionarem da melhor forma possível, demonstrando sem equívocos que só Sam Raimi poderia transpor um dia com sucesso este Super-Herói tão particular numa tela de cinema.

Sucedem-se portanto momentos de antologia que nos fazem questionar como será que Sam Raimi conseguiu filmar cenas assim. A primeira luta entre Peter Parker e o New Goblin, o salvamento de Gwen Stacy, a luta nos túneis do metro com o Sandman, o segundo combate violento e trágico entre Parker e Harry, e claro o grandioso final onde todos marcam presença, contando com um assombroso Venom. A câmara nunca foi tão aérea, os planos tão arriscados, acrobáticos e icónicos, é simples a câmara é literalmente o Spider-Man para além de ser o olho do espectador, conseguido o duplo efeito essencial de nos transportar visceralmente para a tela e de proceder na perfeição à nossa identificação com a personagem principal.


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Mas mais uma vez, essas cenas antológicas não serviriam rigorosamente para nada se não houvesse uma espessura dramática adequada e que conseguisse implicar profundamente o espectador. O grande feito deste “Homem-Aranha 3” é portanto de levar mais longe todas as temáticas abordadas nos primeiros filmes mas sempre numa lógica evolutiva, permitindo aos três filmes juntos formarem quase um único filme em três partes. Essa formidável coerência que cimenta de forma imparável a saga assume-se em várias cenas reflexivas que marcam presença nos três filmes, como por exemplo o final que é despoletado pelo perigo vivido por Mary Jane nas mãos do inimigo do momento ou ainda as cenas de dúvidas interiores de Peter Parker como aquela onde passeia pela rua tentando encontrar definitivamente a sua verdadeira identidade. A saga “Spider-Man” é então construída em crescendo, as suas duas facetas principais que são o burlesco e o drama humano atingindo patamares cada vez mais implicativos e surpreendentes. Assim, uma das características mais conseguidas de “Homem-Aranha 3” é a ausência de maniqueísmo, condição geralmente sine qua non deste tipo de filme. De facto, não há nenhum verdadeiro vilão nem nenhum herói isento de erros no filme. O Sandman (excelente Thomas Haden Church) é de imediato apresentado, numa cena extremamente tocante, como um ser humano que simplesmente tomou as decisões erradas ao longo da sua vida, obcecado pela felicidade da sua filha. Harry Osborn (cada vez mais convincente James Franco), agora substituto do seu defunto pai com a identidade de New Goblin, tem uma evolução surpreendente e representa por si só toda a ambivalência que acarretamos dentro de nós. O próprio Peter Parker (um Tobey Maguire que nasceu para este papel) que explora aqui o seu lado negro, através do simbiota, dando azo aos seus sentimentos mais inconfessáveis e pondo em perigo a vida dos seus próximos. Até o próprio Venom/Eddie Brock, um verdadeiro vilão por essência mas que assume características não humanas e que em última análise poderá ser encarado como o duplo maléfico de Spider-Man, como saído de dentro dele quando esse se liberta do simbiota.


Homem-Aranha 3 (2007) Spiderman3_03


É portanto nesse enquadramento que Sam Raimi leva as suas personagens num rollercoaster de emoções, cuja narrativa límpida poderá esconder de muitos espectadores a extraordinária densidade, privilegiando como sempre, e numa preocupação mais uma vez de coerência absoluta, o casal Peter Parker/Mary Jane Watson (impecável Kirsten Dunst). Passagem definitiva e dolorosa para a idade adulta, com o seu lote de perdas irrecuperáveis, “Homem-Aranha 3” é a conclusão perfeita de uma trilogia que levou as adaptações de comic-book a um patamar mitológico mas também terrivelmente humano, redefinindo por completo a noção de blockbuster e impregnando-o se calhar pela primeira vez de uma nobreza e uma sinceridade em pleno contraste com a sua evidente condição mercantil.

Esse feito impensável que põe lado a lado este “Homem-Aranha 3” de Sam Raimi e o “King Kong” de Peter Jackson, obras máximas da 7ª Arte moderna cujo estatuto de filme de autor inteiramente pensado para o espectador com carapaça de blockbuster milionário fazem delas sonhos de fanboys concretizados na tela, faz de Sam Raimi uma bênção para todos os fãs de cinema deslumbrante onde a imagem icónica se funde na perfeição com os temas simples da vida quotidiana que batem muito forte no espectador.



Dessa forma, o final sensível e silencioso de “Homem-Aranha 3” de uma genuína ternura e de uma evidência implacável acaba de nos convencer ao mesmo tempo que parece marcar o final da viagem de Sam Raimi na liderança das aventuras de Spider-Man. Se assim for, só podemos esperar que este terceiro filme da saga seja mesmo o último porque não há dúvidas que ninguém poderá atingir tudo o que conseguiu Sam Raimi. No final, mesmo se “Homem-Aranha 2” aparece ainda como o mais compacto e narrativamente sólido da trilogia, este “Homem-Aranha 3” é daqueles filmes que crescerão a cada nova visão e não será surpreendente constatar que daqui a uns anos o filme seja irremediavelmente reavaliado pelos seus detractores actuais. Como Sam Raimi parece ter-se despedido com esta nova bomba fílmica, só nos resta dizer: So Long Spidey!


NOTA: 10/10


Fonte: FanatiCine

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