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The Fountain - O Último Capítulo (2006)

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Mensagem  Convidad 26/2/2008, 11:19

The Fountain - O Último Capítulo (2006)

“The Fountain” é uma maravilhosa, aterradora, gloriosa, assombrosa, comovente viagem no espaço e no tempo pelos insondáveis desígnios da vida, da morte e do amor. Em três épocas diferentes, Tom (Hugh Jackman) e Izzi (Rachel Weisz) lutam contra a morte e pelo seu amor. Durante a Inquisição Espanhola, no presente e num futuro longínquo. Ou será em três espaços mentais diferentes? O imaginário de Izzi, a realidade e o imaginário de Tom?

Primeiro que tudo, “The Fountain” fala da vida e da morte desde o início dos tempos e através dos séculos. Desde que Adão e Eva colheram o fruto da árvore do conhecimento e Deus lhes tirou a árvore da vida, passando pela civilização Maia que acreditava que as almas antigas viajavam até uma estrela moribunda para renascerem quando a estrela, ao morrer, se tornasse berço de outras estrelas. No século XVI, quando a Rainha de Espanha procura a vida eterna para salvar o seu país, que sucumbe à tirania da Inquisição, buscando a árvore da vida guardada pelos Maias, que aguardam a segunda vinda do pai de toda a Humanidade. No século XXI, quando um homem tenta a todo o custo salvar a mulher que ama, frenetica e obsessivamente, buscando cura para o cancro. Num futuro distante, num tempo perdido quando, apesar de tudo, Tom ainda não aceita a morte e transporta a árvore da vida até à tal estrela moribunda para que ela possa renascer e com ela a fonte da vida eterna.

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Na verdade, “The Fountain” fala é da nossa não aceitação da morte, e aí a distinção entre espaço e tempo, real e imaginário acaba por não ser importante, porque os temas abordados transcendem estes conceitos, e Darren Aronofsky soube fundi-los brilhantemente. Por outro lado, essa fusão torna o filme não linear e de múltiplas interpretações consoante a percepção e sensibilidade da pessoa que o vir. Mas isso é o que torna o filme extraordinário e único, até porque, de qualquer modo, essa negação da morte como parte integrante da ordem natural das coisas e o sofrimento que daí advém, seja por parte dos que vão morrer, seja por parte dos que ficam para ver morrer aqueles que amam, são universais, em qualquer espaço e em qualquer tempo. E onde se poderia facilmente cair no banal e nos lugares comuns, Aronofsky evita-o magistralmente. Nessa linha de ideia, as tais três épocas podem ser simbolicamente três perspectivas sobre o mesmo acontecimento: a doença de Izzi e a luta de Tom por mantê-la viva.

O presente é o espaço e o tempo onde decorre a acção. É a realidade. O passado é a visão de Izzi sobre esse acontecimento, onde ela (como Rainha) envia o seu mais bravo capitão (Tom), que afirma estar disposto a morrer por Espanha, em busca da árvore da vida (a sua cura), para derrubar o Inquisidor (o cancro). Aquele, por sua vez, tem de lutar contra os guardiães da árvore (poderíamos dizer o organismo de Izzi que não responde aos tratamentos) e também contra os seus próprios soldados que entretanto se rebelam (tal como Tom tem de insistir com os seus médicos assistentes e a sua superior para o deixarem continuar a pesquisa). Izzi escreve esta história, deixando o capitão às portas da morte no penúltimo capítulo e pedindo a Tom que a termine, insistindo que ele sabe como termina. Um apelo à sua aceitação, para que ele ponha um termo e siga em frente. O futuro é a visão de Tom, onde é assolado por imagens de Izzi (de eventos do real, do presente) e onde protege uma árvore da vida humanizada, a quem ele acaricia, a quem ele murmura, uma metamorfização da própria Izzi, pois para ele, ela é a vida (ideia concretizada numa cena em que o tronco da árvore se transforma na perna de Izzi na cena seguinte). Daí ele a transportar pelo espaço, pelas estrelas (conceito de intemporalidade) na esperança de a salvar, de a fazer renascer. Daí ele literalmente se alimentar dela para sobreviver. Daí ela reagir a cada toque seu. A visão de Izzi está no passado porque ela pode não ter futuro, a de Tom está no futuro porque ele recusa-se a pensar que o presente é tudo o que tem.

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Para representar três mundos diferentes, Darren Aronofsky escolheu uma imagética assaz singular, que se baseia essencialmente na luminosidade. O passado está sempre na obscuridade, excepto nas cenas entre a Rainha e o capitão, as únicas cenas de esperança. Rachel Weisz acaba mesmo por perder os seus traços, apresentando-se como um ser luminoso, já mais espírito do que matéria. O presente oscila entre luz e penumbra, tal como as personagens oscilam entre esperança e desespero. O futuro é todo ele luz, assumindo um quadro de confins do universo, entre as nebulosas, os berços das estrelas, talvez remetendo-nos para a insignificância da humanidade em termos cósmicos. Estrelas são também presença permanente no filme, quer no sentido lato, quer simbolicamente, num pontilhado de luzes que envolve o espaço ora sob a forma de candeias suspensas na sala do trono, ora velas dispostas nos aposentos onde os soldados espanhóis rezam, ora centelhas de uma máquina de soldar numa rua em obras. O realizador dá também muita preocupação aos pequenos detalhes, conferindo-lhes grandes planos: os lábios, os olhos, os dedos, os cabelos do pescoço, os poros da pele, um murmúrio: “Está tudo bem”. Nesses detalhes, o tempo passa mais devagar.

É de notar a permanente presença do círculo, de um círculo de onde jorra sempre uma luz intensa amarelada, como um sol. A bolha que envolve o Tom do futuro e a árvore da vida, o redondo das estrelas, das clarabóias sobre as cabeças de ambos, um segundo antes de uma revelação ou de um colapso, deixando as suas caras imersas em luz, ao ponto de perderem os traços do rosto. As luzes por cima da cabeça de Tom, à vez iluminando-o e deixando-o na penumbra enquanto ele percorre o aparentemente infinito corredor até ao quarto de Izzi. Os círculos do caminho dos soldados em busca do templo Maia, o redondo da jóia cristã, em forma de sol, o redondo das alianças. Porque o círculo representa um ciclo, sem princípio nem fim, perpétuo, inevitável, aquilo que une vida e morte, uma transformando-se na outra para todo o sempre, uma a fonte da outra. A própria aliança é também um elemento muito importante, um objecto crucial presente em qualquer espaço, em qualquer tempo, proclamando que nem a vida nem a morte têm sentido sem amor, sem ligações afectivas, e o amor é também a via para a aceitação. E, não obstante, a palavra “amor” nunca é pronunciada, em tempo nenhum, em espaço nenhum.

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Hugh Jackman e Rachel Weisz são magníficos nas suas interpretações. Jackman tem vindo a melhorar a olhos vistos, mas tem aqui o seu expoente máximo de representação, na personificação da dor e da perda iminente do objecto do seu afecto, cuja vida lhe escorre pelas mãos sem que ele consiga evitar, correndo contra o tempo numa negação profunda, numa agonia constante. Weisz é mais discreta no seu papel, mas apenas porque à medida que o filme avança vai ganhando serenidade, e é na sua personagem que reposam o optimismo e a alegria de viver. E também porque por vezes possui uma qualidade de quase transparência, como se fosse de outro mundo. Porém, não deixa de ser muito intensa, tal como Jackman, como já o era n’ “O Fiel Jardineiro”. É uma personagem subtil mas vital, até porque tudo gira em torno dela.

“The Fountain” é uma demanda intemporal, carregando consigo a dor secular da finitude das coisas. Se há preço a pagar pela nossa racionalidade, pela nossa capacidade de amar, esse preço é a consciência da morte. O Homem é o único animal que consegue pensar, que consegue amar, e, como tal, o único que não “consegue” morrer. Este ensaio é tocante e lindíssimo, quer em termos de fotografia, quer de argumento, quer de interpretações, e não deixará indiferente quem o vir, porque fala ao que de mais humano há em nós.

NOTA: 10/10

Fonte: FanatiCine




 

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Mensagem  Prof 27/2/2008, 22:34

Já fiz a review desse filme...Brilhante!!
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