Fórum audiopt.net
Gostaria de reagir a esta mensagem? Crie uma conta em poucos cliques ou inicie sessão para continuar.

Apocalypto (2006)

Ir para baixo

Apocalypto (2006) Empty Apocalypto (2006)

Mensagem  Convidad 26/2/2008, 10:57

Apocalypto (2006)

Mel Gibson, o outrora adulado actor de “Mad Max” e da saga “Arma Mortífera” e agora figura ostracizada devido às suas tomadas de posição extremistas com “A Paixão de Cristo” e recentemente com o já célebre “incidente” que protagonizou, está de regresso com a quarta obra da sua filmografia como realizador e abre assim o ano cinematográfico nacional de 2007.

“Apocalypto” é o filme em questão, história de Pata-Jaguar (Rudy Youngblood), jovem indígena que vive pacificamente na floresta com a sua família e o resto da sua pequena aldeia mas cuja tranquilidade vai ser irremediavelmente perdida quando um grupo de soldados da cidade irrompe pela aldeia e destrói tudo, levando como prisioneiros os sobreviventes. Enfrentando o seu declínio, a reino Maia está decidido a intensificar os sacrifícios aos Deuses para sobreviver, destino que espera Pata-Jaguar e os seus semelhantes. Todavia, Pata-Jaguar consegue fugir e começa então uma longa perseguição de regresso à aldeia onde tudo fará para salvar a sua família.

Apocalypto (2006) Apocalypto03

Não vamos aqui discutir se Mel Gibson é um ser humano abjecto ou não, deixamos isso para as revistas cor-de-rosa, mas vamos sim falar de cinema e é inegável que Mel Gibson se revelou ao longo da sua relativa curta carreira de realizador (apenas quatro filmes) no mínimo um cineasta surpreendente. Após um primeiro ensaio anódino (quem se lembra agora de “Man Without a Face” feito em 1993?), “Braveheart” chegou em 1995 e propulsou o então actor-estrela para o estatuto invejável de realizador muito promissor, definindo também o estilo Mel Gibson, ou seja, violência gráfica, percurso sacrificial e regresso às raízes do eterno combate entre o Bem e Mal como base de uma reflexão sobre a barbaria das nossas sociedades ou como o ser humano tem dentro dele os germes da sua própria destruição. O cinema de Mel Gibson não fala portanto de outra coisa e “Apocalypto” é mais uma pedra a esse edifício de facto sujeito à discussão e à controvérsia mas sem dúvida fascinante.

Dessa forma, “Apocalypto” marca uma nova evolução na reflexão do cineasta mas também na sua linguagem puramente cinematográfica. Assim, “Braveheart”, “A Paixão de Cristo” e “Apocalypto” formam uma curiosa trilogia que mistura estudo civilizacional, experimentação formal digna dos maiores cineastas e exploração das relações entre os seres humanos do ponto de vista primário, onde o cineasta faz regredir as suas personagens a um estado de bestialidade em referência aos primórdios da humanidade. Por isso, os filmes de Mel Gibson são filmes de época. Por isso, a sua narrativa é despojada de complexidade como se a gordura das histórias tivesse sido removida por essa óptica minimalista que alguns acusam de ser ingénua ou maniqueísta mas que finalmente serve o propósito do realizador da melhor forma possível, sendo que frente à ausência de alternativas ou de escapatórias, o Homem apenas encara uma única preocupação, sobreviver. Por isso, os filmes de Mel Gibson são extremamente violentos porque somos animais de duas patas e o visceralismo das imagens será sempre o melhor vector de transmissão de emoções.

O visceralismo é portanto a palavra-mestre do cinema de Mel Gibson e o cineasta tem-lo aplicado como poucos nos seus filmes e sobretudo pela força da sua câmara. Apesar de se tratar de três filmes de época, com o pormenor importante e se calhar nunca antes visto de serem falados nas línguas da época (escocês, aramaico e yucatec), o que confere uma autenticidade impressionante às histórias, obrigando ainda para mais as imagens a serem altamente evocativas, os géneros de cada um revela-se diferente. “Braveheart” é antes de tudo um épico, “A Paixão de Cristo” representa um género por si só, neste caso o filme bíblico e agora, “Apocalypto”, à partida novamente um épico, aparece finalmente como um autêntico survival ao ar livre, como se “O Último dos Moicanos” de Michael Mann se misturasse com “Rambo: First Blood” de Ted Kotcheff.

Apocalypto (2006) Apocalypto05

Nessa óptica, Mel Gibson operou umas mudanças em termos de realização em adequação com esse género, acabando por nos surpreender porque às várias apresentações deixavam antever um filme amplo e majestoso como foi o caso dos seus dois filmes anteriores. O cineasta abandona portanto aqui o formato cinemascope (2.35.1) para optar para um 1.85.1 que perde em largura e em profundidade mas que permite um enfoque mais próximo da acção e das personagens, para além de transportar o espectador de forma mais imediata para dentro das imagens com um ambiente mais rugoso e perigoso que a floresta luxuriante não consegue atenuar. Outro aspecto importante, o filme é rodado em HD com a nova câmara maravilha da Panavision chamada Genesis, o que permitiu ao realizador e ao seu director da fotografia, o australiano e oscarizado Dean Semler (“Dança com Lobos”, “Mad Max 2 e 3”, entre outras muitas coisas), afastarem-se da tradicional “bela imagem” que poderíamos estar à espera para compor planos e cenas raramente vistas num ecrã de cinema. Nesse aspecto, vários momentos de antologia percorrem o filme e não deixarão de certeza o espectador indiferente, nomeadamente a cena de introdução com a caça de um tapir, o ataque da aldeia, a descoberta da enorme cidade e os sacrifícios que se lhe seguem, e por fim, a perseguição final que representa um bom terço do filme inteiro. De facto, a virtuosidade da realização deixa de boca aberta e nessas cenas, cada plano é um verdadeiro soco no estômago com um destaque particular às filmagens das corridas pela floresta, literalmente vertiginosas. Veja-se a cena com o jaguar, de cortar o fôlego.

Portanto, como bom survival épico que é, a narração é o mais linear possível, dividindo-se em três actos bem definidos: a apresentação da aldeia e das personagens e o subsequente ataque, o percurso árduo para a cidade e a descoberta da mesma com os rituais sacrificiais, e a fuga e perseguição final de regresso à aldeia. Mas essa estrutura básica não impede “Apocalypto” de ser um filme complexo nas suas temáticas porque as mesmas são portanto explicitadas e desenvolvidas pelas imagens e por raras linhas de diálogo, como é o caso da história contada à fogueira pelo velho da aldeia que demonstra bem que o Homem é o perigo, o seu próprio inimigo. Da mesma forma, reencontramos uma temática habitual de Mel Gibson, o sofrimento como condição inevitável do nosso estatuto de mortais e como passagem obrigatória para encontrarmos dentro de nós os recursos para sobreviver. O cineasta aborda também frontalmente um tema muito actual, o medo, retratado, por um lado, pela necessidade de o enfrentar e de o ultrapassar (através dos habitantes da aldeia) e, por outro lado, pelo poder que confere para dominar todo um povo como mostra a cena dos sacrifícios onde a manipulação das massas é flagrante cuja denunciação poderá surpreender por parte de um Mel Gibson que nos deu há pouco tempo um filme como “A Paixão de Cristo”, traindo o seu obscurantismo e extremismo religioso.

Assim, a violência ganha contornos bem mais evocativos que o simples efeito gore que muitos já criticaram, como são exemplo duas cenas em particular que frisam sem equívocos que o Homem é um animal em luta constante com a sua própria natureza. A já evocada perseguição com o jaguar onde o herói é simbolicamente substituído pela fera, ressonância que para sobreviver Pata-Jaguar deverá aceitar os seus instintos mais primários, concluindo-se com a cara de um dos perseguidores literalmente arrancada filmada em close-ups traumatizantes. Da mesma forma, as cenas reflexivas da caça do tapir no início do filme e da morte de uma personagem no final traduz brutalmente no ecrã toda a animalidade do ser humano com a qual tem lidado desde os tempos mais imemoriais e que está no centro da evolução sangrenta da nossa História, como ainda hoje se verifica e continuará a verificar-se, fazendo em última análise de “Apocalypto” um filme bem mais actual do que aparenta.

Apocalypto (2006) Apocalypto04

Em conclusão, se “A Paixão de Cristo” não passava de um filme superiormente realizado aniquilado por veleidades doutrinais rígidas e extremamente redutoras, “Apocalypto” é o regresso do brilhante realizador de “Braveheart” que graças a experimentações formais inesperadas que ficarão muito tempo nas nossas retinas, transforma um ensaio sobre temáticas já abordadas mil vezes no cinema em furioso momento de antologia que fala directamente ao nosso corpo, embrenhando-se nele de forma indelével e epidérmica. Sendo realizado por Mel Gibson, “Apocalypto” já está a ser veementemente contestado mas, se deixarmos de fora as considerações sobre a figura pública atrás das câmaras, não há dúvidas que raramente vimos um survival sobre o velho adágio “o Homem é um lobo para o Homem” tão forte e poderoso. Não estávamos à espera de começar 2007 com uma obra-prima de visceralismo mas é exactamente isso que é “Apocalypto”, nada menos.
 
NOTA: 10/10

Fonte : FanatiCine




 

Convidad
Convidado


Ir para o topo Ir para baixo

Ir para o topo


 
Permissão neste fórum:
Você não pode responder aos tópicos