Holbein Menezes - Palco sonoro ou a grande ilusão.
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18072010
Holbein Menezes - Palco sonoro ou a grande ilusão.
Fala-se demais em palco sonoro, e fala-se como se fora coisa pronta e acabada, definida e definitiva, e estática, e concreta, e perceptível. Refere-se a ele às vezes como objeto e por vezes como objetivo. Porém sempre se afirmando que está ali à sua frente. Ou devia estar. Se você não o percebe, então, coitado de você! seu sistema eletrônico para a reprodução do som musical não está “equilibrado”... Quantas vezes já não li testes de equipamentos eletrônicos com essa conclusão!
A meu ver, tal “diagnóstico” sumário sacado contra sistemas eletrônicos para a reprodução do som musical é pura enganação, misturada com alguma dose de perversidade (talvez objetivo não manifestado do “resenheiro”, que assim pontifica para vender a você outro produto...) Cuidado, portanto!
Porque, meus leitores, os frequentadores costumeiros de concertos e recitais e shows ao vivo sabem que o evento original não possui palco sonoro. Ou, pelo menos, não possui só um tipo depalco sonoro. Vejam: nos shows ao relento, por ausência de reverberação no ambiente, a música vem de um ponto indefinido, inda que identificável. Mas os espectadores só “identificam” que o som vem da frente por estarem na parte frontal do palanque, com os olhos voltados para o tablado do show. Identificam porque estão a ver o espetáculo. Basta, porém, fecharem os olhos ou virarem-se para trás, e o ponto do palco torna-se indeterminado. A simples ausência da imagem, na retina, leva-a para a zona cortical da imaginação ou da memória, e não a da audição. Em outras palavras: de música “ao vivo”, evento concreto, passa à categoria de percepção subjetiva. E, como em toda percepção subjetiva, o palco passa também a ser subjetivo. Deixa de existir de fato e passa a existir como lembrança.
Aliás, isso acontece com qualquer fonte de som. Se você estiver vendo a fonte do zumbido, você sabe de onde o zumbido provém, mas se ouve o zumbido de dentro de sua casa, só saberá de onde o zumbido procede se conhecer de antemão a fonte dele. É o que ocorre, por exemplo, com trovões. Se vemos o relâmpago num ponto qualquer do céu, com certeza identificaremos segundos mais tarde o lado de onde vem o decorrente zumbido do trovão. Mas se o escutamos de dentro de casa ou do escritório, essa identificação torna-se problemática: pode lhe parecer que vem de um lado ou de outro, tudo vai depender das reflexões envolvidas.
Nos concertos e recitais em teatros, quer dizer, em recintos fechados com reverberação controlada (segundo o Dr. Amar Bose, 89% refletida e somente 11% direta), a noção do palco vai depender do ponto onde estivermos postados. Na “torrinha” dos teatros de ópera (teatro de ópera não é uma casa de espetáculos só para ópera; assim se designa qualquer teatro de grande porte com capacidade para exibir também óperas), na “torrinha”, por exemplo, ouve-se o som da música como se vê o espetáculo, de ponta-cabeça, ou seja, de cima para baixo. Nessas condições, ouve-se um som sem perspectiva ou de estreita e enviesada perspectiva, como se estivéssemos assistindo ao espetáculo pelo lado de fora do recinto, através de uma janela... (Sei do que estou a falar, tive experiências a mancheias, é muito esquisito.)
Mas nos teatros de ópera há também o som dos camarotes, que é aconchegante porque em geral amaciado por cortinas e guarnições de veludo, e pobre em perspectiva; das frisas, muito próximo do som dos camarotes, mas de melhor perspectiva porquanto ficam quase ao nível da platéia; do balcão nobre, que recebe todo o brilho dos médios uma vez que está situado de frente para o palco e na bissetriz do ângulo vertical formado pelo piso e teto do teatro; da platéia, que é suave, perspectivo, longínquo, mas algo soturno. Há também o som do maestro (que Deus o proteja!), impactante, nas fuças, por vezes mais de 100 decibéis explodidos dentro dos tímpanos do pobre coitado... E, por fim, há o som de cada músico, que ouve seu instrumento em desproporção com o som do instrumento do colega vizinho, por isso que escuta o dele bem perto dos ouvidos e no viés das preocupações com o andamento indicado pelo regente – um olho no cravo e outro na ferradura, ou, propriamente, uma espiada de esguelha no maestro e atenção nos símbolos da partitura em sua frente (parte da partitura).
Palco sonoro como coisa concreta, definida, estável, estanque, compartimentada, o som de cada músico e cada músico no seu lugar, a voz de cada instrumento e cada voz vinda de um dado ponto, bem, essa coisa arrumadinha não existe em música, nem ao vivo nem na reprodução em conserva. Na reprodução em conserva, porque na maioria das vezes as gravações são “trabalhadas” pelos produtores. Música gravada hoje, vozes postadas noutro dia. E ainda: na hora da gravação da música os naipes são divididos e, não raro, compartimentados: contrabaixo (no caso de jazz) dentro de um cubículo fechado, metais isolados das cordas por painéis isolantes, solistas com microfones exclusivos. E mais o poder do senhor Engenheiro de som encarregado da mesa, com seus nervosos dedos e uma porção de botões (resistores variáveis) à disposição... E, sabemos, por via de tais botões o som de um instrumento pode parecer mais longe ou mais perto, ao gosto do senhor engenheiro de som.
E não falo da localização dos microfones e seus múltiplos canais. Ao gosto dos técnicos de áudio e ao capricho do técnico da mesa; um som da esquerda pode ser trocado e ouvido na direita, no centro, na frente, atrás, onde os técnicos quiserem, até mesmo na esquerda onde se originou. Pode ser ouvido forte ou fraco, nítido e articulado ou sutil e indistinto.
Onde então palco sonoro definido e definitivo nas gravações que escutamos?
É verdade que há os discos audiófilos... (Desculpem meu perfeccionismo lingüístico, mas não entendo porque “audiófilo” para designar um tipo de gravação. Audiófilo é uma palavra composta de áudio, do latim audïre = ouvir, mais filo, do grego phÿlon = tribo, raça. O termo audiófilo designa ou devia designar a “tribo/raça dos ouvintes” ou uma pessoa dessa tribo. Mas um disco? Que me conste um disco não é ouvinte nempertence a “tribo” nenhuma.)
É verdade também que a grande maioria dos discos não é audiófilo, estes são apenas uma meia dúzia, feitos por diletantes, produzidos por abnegados, pequenas empresas artesanais a comercializar pequeníssimas quantidades, que não chegam a contar no mar (milhões) dos discos fabricados por companhias multinacionais via máquinas automáticas, e engenheiros de som transformados em manipuladores de espectros de bandas.
Para a exceção do chamado disco audiófilo até que pode fazer sentido falar em palco sonoro porque aqui há um arranjo físico na hora da gravação, o leiaute é predeterminado para lograr um dado efeito e tais efeitos sonoros podem e devem ser passados de igual maneira, ou próximo dela, na reprodução. Mas é a exceção, não é a regra geral, e se não é a regra geral não pode servir de parâmetro para medir coisa alguma. Entenderam agora minha bronca contra palco sonoro e o comparsa dele, o tal “sistema equilibrado ou não equilibrado”?
Sem falar na influência - valha-me meu santo Padim Pade Ciço! -, sem falar na influência da crítica instalação do sistema de som na sala de reprodução. A tirar pelo esquema divulgado pelo George Cardas, que se baseou em normas técnicas estabelecidas (?) pela AES (Sociedade dos Engenheiros de Áudio), dos Estados Unidos, para haver boa imagem (o tal palco sonoro) a sala de audição tem que ter as medidas do segmento áureo, ou andar perto disso. E tem que está disposta (arranjada) nos termos da equação Phi, formada pelos fatores .6180339887... para 1 ou 1 para 1.6180339887... multiplicados pela altura. Entenderam? Nem eu.
Por Holbein Menezes.
A meu ver, tal “diagnóstico” sumário sacado contra sistemas eletrônicos para a reprodução do som musical é pura enganação, misturada com alguma dose de perversidade (talvez objetivo não manifestado do “resenheiro”, que assim pontifica para vender a você outro produto...) Cuidado, portanto!
Porque, meus leitores, os frequentadores costumeiros de concertos e recitais e shows ao vivo sabem que o evento original não possui palco sonoro. Ou, pelo menos, não possui só um tipo depalco sonoro. Vejam: nos shows ao relento, por ausência de reverberação no ambiente, a música vem de um ponto indefinido, inda que identificável. Mas os espectadores só “identificam” que o som vem da frente por estarem na parte frontal do palanque, com os olhos voltados para o tablado do show. Identificam porque estão a ver o espetáculo. Basta, porém, fecharem os olhos ou virarem-se para trás, e o ponto do palco torna-se indeterminado. A simples ausência da imagem, na retina, leva-a para a zona cortical da imaginação ou da memória, e não a da audição. Em outras palavras: de música “ao vivo”, evento concreto, passa à categoria de percepção subjetiva. E, como em toda percepção subjetiva, o palco passa também a ser subjetivo. Deixa de existir de fato e passa a existir como lembrança.
Aliás, isso acontece com qualquer fonte de som. Se você estiver vendo a fonte do zumbido, você sabe de onde o zumbido provém, mas se ouve o zumbido de dentro de sua casa, só saberá de onde o zumbido procede se conhecer de antemão a fonte dele. É o que ocorre, por exemplo, com trovões. Se vemos o relâmpago num ponto qualquer do céu, com certeza identificaremos segundos mais tarde o lado de onde vem o decorrente zumbido do trovão. Mas se o escutamos de dentro de casa ou do escritório, essa identificação torna-se problemática: pode lhe parecer que vem de um lado ou de outro, tudo vai depender das reflexões envolvidas.
Nos concertos e recitais em teatros, quer dizer, em recintos fechados com reverberação controlada (segundo o Dr. Amar Bose, 89% refletida e somente 11% direta), a noção do palco vai depender do ponto onde estivermos postados. Na “torrinha” dos teatros de ópera (teatro de ópera não é uma casa de espetáculos só para ópera; assim se designa qualquer teatro de grande porte com capacidade para exibir também óperas), na “torrinha”, por exemplo, ouve-se o som da música como se vê o espetáculo, de ponta-cabeça, ou seja, de cima para baixo. Nessas condições, ouve-se um som sem perspectiva ou de estreita e enviesada perspectiva, como se estivéssemos assistindo ao espetáculo pelo lado de fora do recinto, através de uma janela... (Sei do que estou a falar, tive experiências a mancheias, é muito esquisito.)
Mas nos teatros de ópera há também o som dos camarotes, que é aconchegante porque em geral amaciado por cortinas e guarnições de veludo, e pobre em perspectiva; das frisas, muito próximo do som dos camarotes, mas de melhor perspectiva porquanto ficam quase ao nível da platéia; do balcão nobre, que recebe todo o brilho dos médios uma vez que está situado de frente para o palco e na bissetriz do ângulo vertical formado pelo piso e teto do teatro; da platéia, que é suave, perspectivo, longínquo, mas algo soturno. Há também o som do maestro (que Deus o proteja!), impactante, nas fuças, por vezes mais de 100 decibéis explodidos dentro dos tímpanos do pobre coitado... E, por fim, há o som de cada músico, que ouve seu instrumento em desproporção com o som do instrumento do colega vizinho, por isso que escuta o dele bem perto dos ouvidos e no viés das preocupações com o andamento indicado pelo regente – um olho no cravo e outro na ferradura, ou, propriamente, uma espiada de esguelha no maestro e atenção nos símbolos da partitura em sua frente (parte da partitura).
Palco sonoro como coisa concreta, definida, estável, estanque, compartimentada, o som de cada músico e cada músico no seu lugar, a voz de cada instrumento e cada voz vinda de um dado ponto, bem, essa coisa arrumadinha não existe em música, nem ao vivo nem na reprodução em conserva. Na reprodução em conserva, porque na maioria das vezes as gravações são “trabalhadas” pelos produtores. Música gravada hoje, vozes postadas noutro dia. E ainda: na hora da gravação da música os naipes são divididos e, não raro, compartimentados: contrabaixo (no caso de jazz) dentro de um cubículo fechado, metais isolados das cordas por painéis isolantes, solistas com microfones exclusivos. E mais o poder do senhor Engenheiro de som encarregado da mesa, com seus nervosos dedos e uma porção de botões (resistores variáveis) à disposição... E, sabemos, por via de tais botões o som de um instrumento pode parecer mais longe ou mais perto, ao gosto do senhor engenheiro de som.
E não falo da localização dos microfones e seus múltiplos canais. Ao gosto dos técnicos de áudio e ao capricho do técnico da mesa; um som da esquerda pode ser trocado e ouvido na direita, no centro, na frente, atrás, onde os técnicos quiserem, até mesmo na esquerda onde se originou. Pode ser ouvido forte ou fraco, nítido e articulado ou sutil e indistinto.
Onde então palco sonoro definido e definitivo nas gravações que escutamos?
É verdade que há os discos audiófilos... (Desculpem meu perfeccionismo lingüístico, mas não entendo porque “audiófilo” para designar um tipo de gravação. Audiófilo é uma palavra composta de áudio, do latim audïre = ouvir, mais filo, do grego phÿlon = tribo, raça. O termo audiófilo designa ou devia designar a “tribo/raça dos ouvintes” ou uma pessoa dessa tribo. Mas um disco? Que me conste um disco não é ouvinte nempertence a “tribo” nenhuma.)
É verdade também que a grande maioria dos discos não é audiófilo, estes são apenas uma meia dúzia, feitos por diletantes, produzidos por abnegados, pequenas empresas artesanais a comercializar pequeníssimas quantidades, que não chegam a contar no mar (milhões) dos discos fabricados por companhias multinacionais via máquinas automáticas, e engenheiros de som transformados em manipuladores de espectros de bandas.
Para a exceção do chamado disco audiófilo até que pode fazer sentido falar em palco sonoro porque aqui há um arranjo físico na hora da gravação, o leiaute é predeterminado para lograr um dado efeito e tais efeitos sonoros podem e devem ser passados de igual maneira, ou próximo dela, na reprodução. Mas é a exceção, não é a regra geral, e se não é a regra geral não pode servir de parâmetro para medir coisa alguma. Entenderam agora minha bronca contra palco sonoro e o comparsa dele, o tal “sistema equilibrado ou não equilibrado”?
Sem falar na influência - valha-me meu santo Padim Pade Ciço! -, sem falar na influência da crítica instalação do sistema de som na sala de reprodução. A tirar pelo esquema divulgado pelo George Cardas, que se baseou em normas técnicas estabelecidas (?) pela AES (Sociedade dos Engenheiros de Áudio), dos Estados Unidos, para haver boa imagem (o tal palco sonoro) a sala de audição tem que ter as medidas do segmento áureo, ou andar perto disso. E tem que está disposta (arranjada) nos termos da equação Phi, formada pelos fatores .6180339887... para 1 ou 1 para 1.6180339887... multiplicados pela altura. Entenderam? Nem eu.
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