Allegro ma non tanto...
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Re: Allegro ma non tanto...
opa!, chegando agora, atrasado e ainda por ler todo o tópico 

Luke Skywalker- utilizador dedicado

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O afeto e a generosidade.
O que os amigos do Brasil fizeram com o evento DIY, ao dedicar-mo-lo, nada mais foi que a prática da generosidade, que é filha do lado bom do afeto. Afeto é a matéria fundamental do comportamento humano, em forma de corrente de energia, que todos homens e mulheres temos; aliás, nascemos cada um com uma dada e finita cota. A descarga dessa energia se faz por via psicomotora, por meio de atos de amor ou ações de ódio; a parte boa e a parte má.
Os amigos e colegas do Brasil, Tutu à frente, descarregaram sobre este velhinho de estimação grande quantidade e a melhor qualidade de suas cotas de afeto.
Muito obrigado. Sinto-me como a bem-amada em cujos braços anciãos os audiófilos tupiniquins despejaram o melhor de seus carinhos. Aceito-lhos!
Holbein.
Os amigos e colegas do Brasil, Tutu à frente, descarregaram sobre este velhinho de estimação grande quantidade e a melhor qualidade de suas cotas de afeto.
Muito obrigado. Sinto-me como a bem-amada em cujos braços anciãos os audiófilos tupiniquins despejaram o melhor de seus carinhos. Aceito-lhos!
Holbein.
holbein menezes- utilizador dedicado

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Re: Allegro ma non tanto...
Parabéns pelo evento e parabéns ao Mestre Holbein pela merecida homenagem 
_________________
Cumprimentos
Paulo André
Sistema
LCD Samsung LE37S62B + WD TV Live Hub + Marantz DV6600
Thorens TD160MKII + Rega Elys 2+Norbert c/ regulação RIAA
Fonte: Pioneer PD-S703 / Philips CD 207
Amplificador: Classic 16.0 / Antique Sound Lab MG-PPSL6 + Antique Sound Lab AQ-2004
Colunas: Davis Acoustics Stentaure LE + Straightwire Waveguide 8
Filtro de Sector DIY
Sennheiser HD205

Paulo André- Equipa Audiopt - Admin.

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Tudo em família...
Holbein,
Por duas de suas passagens pelo Rio fui convidado por amigos em comum a desfrutar de sua companhia... infelizmente o tempo não permitiu, mas o destino me apresentou pessoas que certamente lhe são muito familiares... e foi uma honra conhece-los!
Veja a foto abaixo, em tamanho real e repare na primeira foto, alguém de camisa verde, braços cruzados ao lado de um lindo jovem, ainda adolescente.... querendo ou não, foi a prova irrefutável que herdaram a sua paixão por audio e diy, fora o nome! Parabéns!

Amigos,
Desculpas invadir esse nobre espaço sem qualquer apresentação... me chamo Renato, sou um brasileiro que teima em afirmar que podemos fazer equipamentos artesanais de alta performance.
Tenho até um pequeno site sobre o tema, http://www.diyaudio.com.br
Abração,
Renato
Por duas de suas passagens pelo Rio fui convidado por amigos em comum a desfrutar de sua companhia... infelizmente o tempo não permitiu, mas o destino me apresentou pessoas que certamente lhe são muito familiares... e foi uma honra conhece-los!
Veja a foto abaixo, em tamanho real e repare na primeira foto, alguém de camisa verde, braços cruzados ao lado de um lindo jovem, ainda adolescente.... querendo ou não, foi a prova irrefutável que herdaram a sua paixão por audio e diy, fora o nome! Parabéns!

Amigos,
Desculpas invadir esse nobre espaço sem qualquer apresentação... me chamo Renato, sou um brasileiro que teima em afirmar que podemos fazer equipamentos artesanais de alta performance.
Tenho até um pequeno site sobre o tema, http://www.diyaudio.com.br
Abração,
Renato
XmaxBR- utilizador iniciado
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Re: Allegro ma non tanto...
Renato, bem vindo ao audiopt.


Luke Skywalker- utilizador dedicado

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Re: Allegro ma non tanto...
muito bem Renato!
estive agorinha mesmo a ver o site e gostei muito.
parabéns e estás convidado a fazer a apresentação no local proprio.
vai aparecendo por aqui,diverte-te,e fica o desafio para abrires aqui um topico no nosso espaço diy
abraços transatlanticos
Milton
estive agorinha mesmo a ver o site e gostei muito.
parabéns e estás convidado a fazer a apresentação no local proprio.
vai aparecendo por aqui,diverte-te,e fica o desafio para abrires aqui um topico no nosso espaço diy
abraços transatlanticos
Milton
Convidad- Convidado
Re: Allegro ma non tanto...
Na espera da próxima parte 

Luke Skywalker- utilizador dedicado

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Re: Allegro ma non tanto...
Luke Skywalker escreveu:Na espera da próxima parte
e eu já estou "de plantão" aqui bem na frente do monitor
Convidad- Convidado
Quando se tem amigos , tudo se torna mais facil
Um sonho que se realizou.
Fazia tempo que militava na area DIY e fui muitas vezes criticado no forum que frequentava, por aqueles que so viam as soluções ,quando elas tinham uma marca e ficou cada vez mais difícil convencer alguém lá ,isso quando o parametro não era mais a qualidade e sim o valor dos equipamentos.
Havia a necessidade de mostrar para as pessoas, que gostam do Hobby, que existe outras soluções e para diversos orçamentos.
Um equipamento quando sai da Europa, chega com o valor dobrado ,somente pela diferença de câmbio,e, pelos os impostos ,o lucro do revendedor , os valores dos equipamentos ficam em até 10 vezes o seu valor de origem;Um absurdo certamente.
Com isso passou-se a ser, o nosso hobby do audio, um elemento de status.
Aquele que tem um bom sistema de entrada certamente é rico ,diziam alguns no forum.
Contra o império do mal e suas marcas, aqueles que usam do audio como fator desagregador e elitista,surgiu os amigos que procuravam soluções para todos que gostariam de ter um setup de qualidade e compartilhavam-se os segredos.
Digo que fui diversas vezes expulso do forum, por contrariar interesses econômicos, mas por força da minha boa intenção ,reconhecida, fui reaceito outras tantas por pedido dos membros que achavam que valia ter um TUTU ali, um ser extraterrestre no meio de pensamentos tão iguais e sem esperanças ,creio eu.Aprenderam a conviver comigo, agora tomo advertencia(campeão mundial) quando apago algo que eu mesmo escrevi, absurdo mas é verdade , quase me auto expulsei por causa disso essa semana.
E criamos o Slogam: Audio é resultado.
não adianta gastar muito e ter resultado ruim , é possivel gastar menos e o resultado ser melhor.
Era certo que o grupo de diyers iria entrar nessa corrente de amigos e iria defender esse pensamento.
Quando tive a idéia de montar o evento não sabia como colocaria isso em prática, foi quando o Renato, que tem melhor visão capitalista que eu, sugeriu uma conta matemática em que pessoas do grupo contribuiriam com 20 reais (10 dolares) durante 6 meses e com esse valor conseguiriamos alugar um espaço para o evento, quando colocamos isso no forum o número de adesão a causa foi maior que o esperado e conseguimos alocar por dois dias o evento.
Agora ficamos com vontade de realizar todo ano um , mas a vontade esta sendo tão grande que resolvemos fazer encontros menores para trocas de experiencias e mostrar nossos feitos Diy.
Por tanto o caminho é esse União e amizade para que os sonhos sejam realizados.
Não sou contra as marcas , sou contra os que querem tirar o direito de sonhar, daqueles que não tem recursos ou conhecimento (momentaneo) para ter som com qualidade.
Abraços cordiais!
Fazia tempo que militava na area DIY e fui muitas vezes criticado no forum que frequentava, por aqueles que so viam as soluções ,quando elas tinham uma marca e ficou cada vez mais difícil convencer alguém lá ,isso quando o parametro não era mais a qualidade e sim o valor dos equipamentos.
Havia a necessidade de mostrar para as pessoas, que gostam do Hobby, que existe outras soluções e para diversos orçamentos.
Um equipamento quando sai da Europa, chega com o valor dobrado ,somente pela diferença de câmbio,e, pelos os impostos ,o lucro do revendedor , os valores dos equipamentos ficam em até 10 vezes o seu valor de origem;Um absurdo certamente.
Com isso passou-se a ser, o nosso hobby do audio, um elemento de status.
Aquele que tem um bom sistema de entrada certamente é rico ,diziam alguns no forum.
Contra o império do mal e suas marcas, aqueles que usam do audio como fator desagregador e elitista,surgiu os amigos que procuravam soluções para todos que gostariam de ter um setup de qualidade e compartilhavam-se os segredos.
Digo que fui diversas vezes expulso do forum, por contrariar interesses econômicos, mas por força da minha boa intenção ,reconhecida, fui reaceito outras tantas por pedido dos membros que achavam que valia ter um TUTU ali, um ser extraterrestre no meio de pensamentos tão iguais e sem esperanças ,creio eu.Aprenderam a conviver comigo, agora tomo advertencia(campeão mundial) quando apago algo que eu mesmo escrevi, absurdo mas é verdade , quase me auto expulsei por causa disso essa semana.
E criamos o Slogam: Audio é resultado.
não adianta gastar muito e ter resultado ruim , é possivel gastar menos e o resultado ser melhor.
Era certo que o grupo de diyers iria entrar nessa corrente de amigos e iria defender esse pensamento.
Quando tive a idéia de montar o evento não sabia como colocaria isso em prática, foi quando o Renato, que tem melhor visão capitalista que eu, sugeriu uma conta matemática em que pessoas do grupo contribuiriam com 20 reais (10 dolares) durante 6 meses e com esse valor conseguiriamos alugar um espaço para o evento, quando colocamos isso no forum o número de adesão a causa foi maior que o esperado e conseguimos alocar por dois dias o evento.
Agora ficamos com vontade de realizar todo ano um , mas a vontade esta sendo tão grande que resolvemos fazer encontros menores para trocas de experiencias e mostrar nossos feitos Diy.
Por tanto o caminho é esse União e amizade para que os sonhos sejam realizados.
Não sou contra as marcas , sou contra os que querem tirar o direito de sonhar, daqueles que não tem recursos ou conhecimento (momentaneo) para ter som com qualidade.
Abraços cordiais!
Última edição por TUTUBARAO em 7/6/2010, 21:55, editado 4 vez(es) (Razão : melhorar o texto)

TUTUBARAO- utilizador iniciado
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Re: Allegro ma non tanto...
Luke, Milton e Amigos,
Muito obrigado mesmo pela ótima recepção! Vou dar uma espiada com atenção e no que puder colaborar, será com muito prazer...
Tuba,
Andas tão emotivo...assim eu me emociono também...
Abração a todos,
Renato
Muito obrigado mesmo pela ótima recepção! Vou dar uma espiada com atenção e no que puder colaborar, será com muito prazer...
Tuba,
Andas tão emotivo...assim eu me emociono também...
Abração a todos,
Renato
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Um DIY pau--de-arara.
Tutu, meu querido amigo.
No próximo evento do DIY estarei enviando o mais efetivo "faça você mesmo" que "inventei" nesses sessenta anos de "invenções estrambóticas" a que me dei o prazer; trata-se do mais singelo e mais barato e mais operativo e mais benéfico "filtro de setor", como se diz em Portugal, ou "condicionador de energia" como os sabidos do Brasil batizaram; um singelo transformador-isolador toroidal de 2K5 watts; só isso; ao custo de 600 reais, puxa vida!!!!!
Um abraço do seu fã
Holbein.
No próximo evento do DIY estarei enviando o mais efetivo "faça você mesmo" que "inventei" nesses sessenta anos de "invenções estrambóticas" a que me dei o prazer; trata-se do mais singelo e mais barato e mais operativo e mais benéfico "filtro de setor", como se diz em Portugal, ou "condicionador de energia" como os sabidos do Brasil batizaram; um singelo transformador-isolador toroidal de 2K5 watts; só isso; ao custo de 600 reais, puxa vida!!!!!
Um abraço do seu fã
Holbein.
holbein menezes- utilizador dedicado

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Allegro ma non tanto - Parte III.
Lá no Nordeste Brasileiro só há duas estações: a que chamamos de Inverno (a temporada das chuvas) e a que designamos como Verão, a temporada que não chove; nas duas temporadas, a temperatura varia de 25º para 32ºC. Os meses de Inverno são de janeiro a maio, quando a temporada das chuvas é considerada “boa”; no resto do ano não chove nem um pingo. Não é raro, porém, passarem-se dois, três e até quatro anos sem chuva alguma: a essa estiagem longa chamamos de seca.
Ora, durante a seca de 1932, que durou até 1934, Xandi Cabral vai tentar a vida em Fraqueza, a capital do Estado. Hospeda-se na casa de sua tia Nenzinha. Faz exame de admissão para o Liceu, ao tempo, único colégio oficial do Estado. De onde sai sete anos mais tarde para tentar o vestibular de medicina no Rio de Fevereiro. Aí, mora em São Gonçalves, em casa de outra tia. Vem todos os dias para um cursinho preparatório na Praça Arranca-dentes. Seis meses depois tenta o vestibular para a Faculdade de Medicina da Praia Rubra. Não passa. Desiste da medicina e faz concurso para o Banco do Pais, classificando-se. Toma posse em junho de 1943. Hoje, é aposentado, assim como Amaral Tedesco, que é do mesmo concurso que ele.
-- P... pu... por favor, Amaral – fala Xandi, a língua um tanto enrolada pelo efeito do vinho – bota aquele quar... o quar... o quarte... o quarteto do Shost... do Shosta... do Shostakovich. Como me sinto bem com essa música!
Toda vez que bebe o escritor gagueja e volta a falar com sotaque nordestino, apesar de residir faz mais de quarenta anos no sul do País. Amaral e Xandi são conterrâneos, o primeiro do norte do Estado, da cidade de Amassapão, e o segundo, do Vale do Jaguari onde corre um rio com o mesmo nome por cujo largo leito arenoso atravessa-se no Verão sem molhar os pés. Já Ernesto Quartin é catarina, com descendência estrangeira, sangue alemão com francês.
-- Eu também gosto do Quarteto Número Quinze, de Shostakovich. E gosto muito – afirma enfático Amaral. – Acho que vocês sabem, trata-se da última obra do compositor soviético. Na verdade, a Sonata para Viola é a sua última peça, mas o décimo quinto quarteto de cordas é considerado o derradeiro grande trabalho do mestre. Nele, o compositor parece ter a premonição da própria morte, que acontecerá alguns meses mais tarde, em 1975. A primeira audição do quarteto ocorreu em novembro de 1974. Aliás, está tudo escrito na contracapa do estojo – conclui, sorrindo entre os dentes, e olhando de soslaio para Xandi Cabral.
-- Não conheço a peça – confessa Ernesto Quanti. – Mas, aprecio a música do compositor russo, sobretudo a sua Quinta Sinfonia.
O anfitrião, descamisando com extremo cuidado o disco, tocando apenas na sua borda com o dedo polegar, e os demais dedos postados na parte lisa do centro do disco, passa a capa ao amigo Xandi e conduz o disco ao closet de cerâmica, dentro do qual, sobre mesa de mármore, está instalado o toca-discos.
-- Esse grau de cuidado – observa Xandi, repetindo frase ali pronunciada dezenas de vezes e que indica que o vinha já sobe-lhe à cabeça, tocando no disco como se fosse a coroa da rainha da Inglaterra –, para mim não tem similitude. Só comparada à sua própria precaução de isolar dentro de uma cafua de tijolos maciços, o toca-discos, para evitar a pressão do ar produzida pelos sonofletores. Você é completamente doido, conterrâneo!
-- Louco não, audiota. Mas por falar em loucura, escutem esta: a vizinha aí de frente pegou o marido comendo a cunhada na própria cama do casal. Fez um escândalo dos diabos. Daqui de casa ouvia-se a mulher a gritar, quase histérica: “-- Minha própria irmã! Na minha cama! Dupla de sem-vergonhas! Foi castigo meu Deus! Foi castigo! Quem me mandou hospedar uma ninfomaníaca? Que além de tudo gosta de dar o rabo. Depravados!” A briga durou a noite toda.
-- Também a mulher é um tesão – acrescenta Quartin, lascivo. – Irresistível! Com aqueles olhos de peixe morto, narinas dilatadas, bico dos seios tumefactos, sempre salientes, ventre prometedor, com aquelas coxinhas roliças de fora, pernas cabeludas, budinha pra trás, e mais o sovaco por fazer, sei não. É a própria Messalina.
-- Ou Dalila – esnoba Xandi.
-- Por que não Frinéia? – desfia Amaral.
-- Não posso aqui arrolar as putas da História, não é? – desbocado, tenta encerrar a digressão Xandi Cabral, interessado na música de Schostakovich.
Os primeiros acordes do quarteto soam na sala. Lento lamento, desesperançado, sustentado ora pelos violinos, em pianíssimo, ora pelo violoncelo, em tom bastante sombrio, seguido da viola queixosa e choramingas. Os quatro instrumentos criam pesada atmosfera de sofrimento, de perda total e definitiva.
-- Pressente-se que o autor deplora a própria morte, e parece que a adivinha próxima, não acham vocês? – pergunta Amaral.
-- Nunca entendi – prossegue Xandi – porque se deplora a morte. Além de ser um fenômeno natural e inevitável e, ao mais das vezes, uma solução.
-- Como solução? – indaga alguém.
-- Vejam bem: solução para os que sofrem. Nesse caso é a mágica que põe termo à nossa humana desgraça. Solução para os anciãos: após tanta vida vivida e sofrida, é o término insultuoso do longo espetáculo existencial. E no caso de ocorrer de repente..., bem, de repente não se morre, desaparece-se, esfumaça-se, volatiza-se. Ora, na lógica mecanicista do Kant, se não há morte, logo não se morre.
Na altura, começa a fase alcoólica em que o escritor torna-se brilhante, e valente, desafiando tudo, inclusive a morte, a qual teme tanto. Sua verve explode inteira.
-- A morte – ironiza o franco-germânico Quartin – é tema fértil e realidade estéril. No primeiro caso, quando dela se fala e escreve, e no segundo, quando se a vive.
-- Você acabou de dizer um paradoxo! Por acaso se vive a morte? – invectiva Xandi Cabral.
-- Xandi – bate-lhe no ombro o anfitrião, tentando desviar a discussão –, vou até a adega apanhar mais vinho. Fiquem aí conversando com o predefunto, enquanto escolho um bom Merlot para contracenar com os filósofos que vocês estão.
Sai rápido. A adega está parede-meia à sala de música. Mas abaixo do piso um metro. De lá, ouvem-se os sons e vozes provindos do auditório. Amaral escuta a voz abaritonada de Xandi, que recita alguma coisa.
--“Reconheçamos humildemente nossa dupla e contraditória condição. Não podemos, é certo, viver com a morte. Mas também não podemos viver sem ela. Nec tecum nec sine te.”
A adega é um cubículo de três metros de comprimento por um vírgula seis de largura e um vírgula oito de altura. Toda de pedra. Iluminada por fraca luz alaranjada. Explicação, segundo o enólogo cabeça-chata: “-- Vinho necessita de escuridão para repousar. De escuridão e de silencio, e de absoluta inércia.”
Amaral vê-se diante dos escaninhos de basalto. Deles apontam gargalos de garrafas, revestidos de estanho: nas melhores marcas, estanho, mas nas marcas menos nobres, plástico. Alguns gargalos com revestimento em vermelho, outros, na cor preta. O enólogo arataca se sensibiliza quando entra na sua adega. Cai em êxtase. E sempre se lembra da prosa do seu primo Camelo, em carta de Sombreiro: “-- Nordestino com adega, Primo, é o mesmo que jumento com gravata-borboleta. Tá virando baitola, ó xente?”
Foi ele próprio, carpinteiro e pedreiro amador, que construiu a adega. Ficou funcional e bonita. Naquele instante, dentro da adega, acerca-se das estantes que cobrem três das quatro paredes, e examina as etiquetas dependuradas dos gargalos, com dados relativos à data de entrada, preço, fornecedor, tipo de uva, ano da safra, fabricante e origem. Pega uma garrafa de Merlot, safra de 1983, sai e volta à sala de música.
-- Que diabo de coisa sobre a morte estavas a declamar, hem, Xandi?
-- Recitava o grande Tristão de Athayde – responde de pronto o escritor –, um soberbo trecho da crônica Meditação sobre a morte, publicada no Jornal do Brasil, em 1972. Querem ouvi-la toda?
-- Vote! Bichinnho. Para ouvir sobre a morte basta escutar este quarteto mórbido do Shosta.
-- Por exemplo, este fugato – acrescenta Quartin –, em que cada instrumento, em acordes longos e crescentes, emite verdadeiros gemidos de alma enferma ou moribunda. Embora assim pungente, é genialmente criativo. Gosto do Schostakovich, sobretudo pela inventiva e pelo inusitado dos temas.
-- Essa é a tese que tenho sustentado – profere o escritor, levantando-se e adotando posição de quem vai discursar. – Não pode haver criação artística sem sofrimento moral e físico. O Schosta foi pessoa muito infeliz. Viveu prisioneiro do dogmatismo político do PCUS. Uma das vítimas do zdhannovianismo que imperou na antiga União Soviética até a morte de Stalin. Todos lembramos da célebre e malfadada intervenção de Andrei Zdhanov, em 1946, no Smolni, em Leningrado. Ocasião em que proferiu diante da intelectualidade soviética, entre a qual se encontravam Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich, o espantoso Informe sobre as revistas Zvezda e Liningrad. Aliás, Shostakovich já vinha sofrendo severa crítica, e até mesmo censura, desde 1930, quando a literatura e as artes em geral passaram na Russia a ser dirigidas e controladas pelo Partido. Desse período são a ópera Lady Macbeth of Mtsensk e o balé The Limpid Book, proibidos durante muitos anos de serem executados no país e nas regiões sob a influência soviética. A pressão foi tão forte sobre o compositor, que ele se viu obrigado a apor o subtítulo “Resposta de um artista soviético a uma crítica justa”, à sua Quinta Sinfonia, composta em 1937.
Um tanto exausto com o discurso, suando o pálido rosto oval agora avermelhado, os pés enroscados com um fio de áudio que corria pelo chão, o escritor vacila, desequilibra-se e desaba sobre o sofá, quase caindo por cima do Quartin.
-- Porra! Amaral – vocifera –, você nunca arruma esta sala. É fio para todos os lados. – E virando-se para o grandalhão Quartin: -- Desculpe-me, Ernesto, machuquei-o?
-- Não. De maneira nenhuma.
A sala de música de Amaral Tedesco mais parece um estúdio de televisão, cabos e fios por todos os cantos, e aparelhos eletrônicos em diversas posições, até parafusados ao longo da parede dos fundos. O audiófilo tem, para essa aparente bagunça, uma explicação:
-- Nada aqui é por acaso nem por descaso. Os equipamentos, assim tão próximos, fazem a posição ideal de interação: quanto mais curta a distância entre os elos do sistema, menos o tamanho nos cabos de interligação. Cabos, mesmo blindados, funcionam como antenas e captam sinais de radiofrequência, os quais são manifestados em forma de deformações do sinal original gravado nos discos. Nasalidade e estridência são as mais comuns.
O quarteto de cordas de Schostakovich continua: ouve-se agora o Nocturne, saudosista, nostálgico, trecho curto. Especula Xandi: “-- Possivelmente evocando raras e fugazes situações de felicidade.” Segue-se-lhe o tema da Marcha Fúnebre, longamente desenvolvido.
O anfitrião, ainda com a garrafa de vinho na mão e um saca-rolhas artesanal, feito de madeira, contendo engenhoso dispositivo para sacar a rolha da garrafa sem qualquer esforço nem estampido, debruça-se sobre a mesinha de ripas de pinho. Capricha no ritual: torce a primeira alavanca do saca-rolhas; com vagar, uma volta, duas, quatro, até o fim da rosca; em seguida roda a segunda alavanca, a de baixo, até a rolha desprender-se por completo do gargalo. Retira a cortiça da engrenagem, examina-a com atenção, leva-a próximo ao nariz, aspira a aura e limpa com um pano branco de linho a borda da garrafa. Volta a inclinar-se sobre a mesinha, e de uma bandeja de prata retira um cálice de cristal no qual derrama um pouco de vinho. Torna a aspirar o buquê, uma, duas, três vezes, balançando a cabeça de um lado para outro a fim de que o olfato cubra toda a superfície cilíndrica do cálice. Coloca o cálice contra a luz e examina cor e transparência. Por fim, leva-o à boca e suga pequena porção, que deposita sobre a língua espalhando-a até os mais afastados sensores do paladar. Bochecha e bebe. Depois expira lentamente para sentir o retrogosto. Então diz:
-- Este está bom. Tem buquê, denotando carvalho. Encorpado. Sem dúvida, desenvolveu-se bastante no ano de repouso que passou. É, possivelmente, o terceiro melhor Merlot produzido no País. E o mais barato, incrível, não?
-- Saúde ao camarada conde de Amassapão! Nascido nos semiaridos sertões do norte do Estado, com canícula e quarenta graus à sombra, um bichinho assim medito a entender de vinho! Nordestino é antes de tudo um atrevido!
-- É antes de tudo um forte, como constatou Euclydes da Cunha – protesta Ernesto Quartin. – Admiro muito o povo de vocês: paciente, mas determinado, cordato, mas valente, subalimentado, mas resistente, inculto, mas inteligente, subdesenvolvido, mas criativo. Um pouco do espírito judeu, um tanto do caráter oriental, a resistência africana e a alegria tupi-guarani. Uma mistura extraordinária!
-- Está enganado – responde-lhe Amaral.
-- Enganado? Indaga atônito Quartin.
-- Não me refiro ao que você disse nem poderia. Fez um rasgado elogio à nossa gente. Respondo ao Xandi.
-- Enganado por quê? Só se for porque omiti que o conde de Amassapão, proletário fabricado, foi preso por terrorismo? – provoca o escritor.
-- Nunca fui terrorista nem sequer comunista. Fui preso por ter praticado um ato de caridade. Por ter abrigado em minha casa uma pessoa assustada, faminta, e além de tudo doente, que fugia da morte certa pela polícia política. Fui preso por ter praticado o Evangelho de Cristo. Se eu houvesse feito como tantos cristãos vendilhões do templo que andam por aí, se apenas pregasse os ensinamentos do Homem e os não praticasse, certamente não teria sido aborrecido, apesar do marxista confesso e convicto que sou.
-- Li Karl Marx e Sigmund Freud – tenta aliviar o clima de querela Quartin, notando a irritação de escritor –, li-os no original, por exigência de meu pai, para eu não esquecer o alemão. Meu pai considerava esses dois, e mais Charles Darwin, os verdadeiros messias da Humanidade. Dizia que Marx apontou aos povos o verdadeiro e único caminho da salvação, Freud, o da salvação do homem enquanto pessoa, e Darwin nos desendeusou, remetendo-nos à nossa condição animal, de onde nunca nos devíamos ter afastados.
Ora, durante a seca de 1932, que durou até 1934, Xandi Cabral vai tentar a vida em Fraqueza, a capital do Estado. Hospeda-se na casa de sua tia Nenzinha. Faz exame de admissão para o Liceu, ao tempo, único colégio oficial do Estado. De onde sai sete anos mais tarde para tentar o vestibular de medicina no Rio de Fevereiro. Aí, mora em São Gonçalves, em casa de outra tia. Vem todos os dias para um cursinho preparatório na Praça Arranca-dentes. Seis meses depois tenta o vestibular para a Faculdade de Medicina da Praia Rubra. Não passa. Desiste da medicina e faz concurso para o Banco do Pais, classificando-se. Toma posse em junho de 1943. Hoje, é aposentado, assim como Amaral Tedesco, que é do mesmo concurso que ele.
-- P... pu... por favor, Amaral – fala Xandi, a língua um tanto enrolada pelo efeito do vinho – bota aquele quar... o quar... o quarte... o quarteto do Shost... do Shosta... do Shostakovich. Como me sinto bem com essa música!
Toda vez que bebe o escritor gagueja e volta a falar com sotaque nordestino, apesar de residir faz mais de quarenta anos no sul do País. Amaral e Xandi são conterrâneos, o primeiro do norte do Estado, da cidade de Amassapão, e o segundo, do Vale do Jaguari onde corre um rio com o mesmo nome por cujo largo leito arenoso atravessa-se no Verão sem molhar os pés. Já Ernesto Quartin é catarina, com descendência estrangeira, sangue alemão com francês.
-- Eu também gosto do Quarteto Número Quinze, de Shostakovich. E gosto muito – afirma enfático Amaral. – Acho que vocês sabem, trata-se da última obra do compositor soviético. Na verdade, a Sonata para Viola é a sua última peça, mas o décimo quinto quarteto de cordas é considerado o derradeiro grande trabalho do mestre. Nele, o compositor parece ter a premonição da própria morte, que acontecerá alguns meses mais tarde, em 1975. A primeira audição do quarteto ocorreu em novembro de 1974. Aliás, está tudo escrito na contracapa do estojo – conclui, sorrindo entre os dentes, e olhando de soslaio para Xandi Cabral.
-- Não conheço a peça – confessa Ernesto Quanti. – Mas, aprecio a música do compositor russo, sobretudo a sua Quinta Sinfonia.
O anfitrião, descamisando com extremo cuidado o disco, tocando apenas na sua borda com o dedo polegar, e os demais dedos postados na parte lisa do centro do disco, passa a capa ao amigo Xandi e conduz o disco ao closet de cerâmica, dentro do qual, sobre mesa de mármore, está instalado o toca-discos.
-- Esse grau de cuidado – observa Xandi, repetindo frase ali pronunciada dezenas de vezes e que indica que o vinha já sobe-lhe à cabeça, tocando no disco como se fosse a coroa da rainha da Inglaterra –, para mim não tem similitude. Só comparada à sua própria precaução de isolar dentro de uma cafua de tijolos maciços, o toca-discos, para evitar a pressão do ar produzida pelos sonofletores. Você é completamente doido, conterrâneo!
-- Louco não, audiota. Mas por falar em loucura, escutem esta: a vizinha aí de frente pegou o marido comendo a cunhada na própria cama do casal. Fez um escândalo dos diabos. Daqui de casa ouvia-se a mulher a gritar, quase histérica: “-- Minha própria irmã! Na minha cama! Dupla de sem-vergonhas! Foi castigo meu Deus! Foi castigo! Quem me mandou hospedar uma ninfomaníaca? Que além de tudo gosta de dar o rabo. Depravados!” A briga durou a noite toda.
-- Também a mulher é um tesão – acrescenta Quartin, lascivo. – Irresistível! Com aqueles olhos de peixe morto, narinas dilatadas, bico dos seios tumefactos, sempre salientes, ventre prometedor, com aquelas coxinhas roliças de fora, pernas cabeludas, budinha pra trás, e mais o sovaco por fazer, sei não. É a própria Messalina.
-- Ou Dalila – esnoba Xandi.
-- Por que não Frinéia? – desfia Amaral.
-- Não posso aqui arrolar as putas da História, não é? – desbocado, tenta encerrar a digressão Xandi Cabral, interessado na música de Schostakovich.
Os primeiros acordes do quarteto soam na sala. Lento lamento, desesperançado, sustentado ora pelos violinos, em pianíssimo, ora pelo violoncelo, em tom bastante sombrio, seguido da viola queixosa e choramingas. Os quatro instrumentos criam pesada atmosfera de sofrimento, de perda total e definitiva.
-- Pressente-se que o autor deplora a própria morte, e parece que a adivinha próxima, não acham vocês? – pergunta Amaral.
-- Nunca entendi – prossegue Xandi – porque se deplora a morte. Além de ser um fenômeno natural e inevitável e, ao mais das vezes, uma solução.
-- Como solução? – indaga alguém.
-- Vejam bem: solução para os que sofrem. Nesse caso é a mágica que põe termo à nossa humana desgraça. Solução para os anciãos: após tanta vida vivida e sofrida, é o término insultuoso do longo espetáculo existencial. E no caso de ocorrer de repente..., bem, de repente não se morre, desaparece-se, esfumaça-se, volatiza-se. Ora, na lógica mecanicista do Kant, se não há morte, logo não se morre.
Na altura, começa a fase alcoólica em que o escritor torna-se brilhante, e valente, desafiando tudo, inclusive a morte, a qual teme tanto. Sua verve explode inteira.
-- A morte – ironiza o franco-germânico Quartin – é tema fértil e realidade estéril. No primeiro caso, quando dela se fala e escreve, e no segundo, quando se a vive.
-- Você acabou de dizer um paradoxo! Por acaso se vive a morte? – invectiva Xandi Cabral.
-- Xandi – bate-lhe no ombro o anfitrião, tentando desviar a discussão –, vou até a adega apanhar mais vinho. Fiquem aí conversando com o predefunto, enquanto escolho um bom Merlot para contracenar com os filósofos que vocês estão.
Sai rápido. A adega está parede-meia à sala de música. Mas abaixo do piso um metro. De lá, ouvem-se os sons e vozes provindos do auditório. Amaral escuta a voz abaritonada de Xandi, que recita alguma coisa.
--“Reconheçamos humildemente nossa dupla e contraditória condição. Não podemos, é certo, viver com a morte. Mas também não podemos viver sem ela. Nec tecum nec sine te.”
A adega é um cubículo de três metros de comprimento por um vírgula seis de largura e um vírgula oito de altura. Toda de pedra. Iluminada por fraca luz alaranjada. Explicação, segundo o enólogo cabeça-chata: “-- Vinho necessita de escuridão para repousar. De escuridão e de silencio, e de absoluta inércia.”
Amaral vê-se diante dos escaninhos de basalto. Deles apontam gargalos de garrafas, revestidos de estanho: nas melhores marcas, estanho, mas nas marcas menos nobres, plástico. Alguns gargalos com revestimento em vermelho, outros, na cor preta. O enólogo arataca se sensibiliza quando entra na sua adega. Cai em êxtase. E sempre se lembra da prosa do seu primo Camelo, em carta de Sombreiro: “-- Nordestino com adega, Primo, é o mesmo que jumento com gravata-borboleta. Tá virando baitola, ó xente?”
Foi ele próprio, carpinteiro e pedreiro amador, que construiu a adega. Ficou funcional e bonita. Naquele instante, dentro da adega, acerca-se das estantes que cobrem três das quatro paredes, e examina as etiquetas dependuradas dos gargalos, com dados relativos à data de entrada, preço, fornecedor, tipo de uva, ano da safra, fabricante e origem. Pega uma garrafa de Merlot, safra de 1983, sai e volta à sala de música.
-- Que diabo de coisa sobre a morte estavas a declamar, hem, Xandi?
-- Recitava o grande Tristão de Athayde – responde de pronto o escritor –, um soberbo trecho da crônica Meditação sobre a morte, publicada no Jornal do Brasil, em 1972. Querem ouvi-la toda?
-- Vote! Bichinnho. Para ouvir sobre a morte basta escutar este quarteto mórbido do Shosta.
-- Por exemplo, este fugato – acrescenta Quartin –, em que cada instrumento, em acordes longos e crescentes, emite verdadeiros gemidos de alma enferma ou moribunda. Embora assim pungente, é genialmente criativo. Gosto do Schostakovich, sobretudo pela inventiva e pelo inusitado dos temas.
-- Essa é a tese que tenho sustentado – profere o escritor, levantando-se e adotando posição de quem vai discursar. – Não pode haver criação artística sem sofrimento moral e físico. O Schosta foi pessoa muito infeliz. Viveu prisioneiro do dogmatismo político do PCUS. Uma das vítimas do zdhannovianismo que imperou na antiga União Soviética até a morte de Stalin. Todos lembramos da célebre e malfadada intervenção de Andrei Zdhanov, em 1946, no Smolni, em Leningrado. Ocasião em que proferiu diante da intelectualidade soviética, entre a qual se encontravam Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich, o espantoso Informe sobre as revistas Zvezda e Liningrad. Aliás, Shostakovich já vinha sofrendo severa crítica, e até mesmo censura, desde 1930, quando a literatura e as artes em geral passaram na Russia a ser dirigidas e controladas pelo Partido. Desse período são a ópera Lady Macbeth of Mtsensk e o balé The Limpid Book, proibidos durante muitos anos de serem executados no país e nas regiões sob a influência soviética. A pressão foi tão forte sobre o compositor, que ele se viu obrigado a apor o subtítulo “Resposta de um artista soviético a uma crítica justa”, à sua Quinta Sinfonia, composta em 1937.
Um tanto exausto com o discurso, suando o pálido rosto oval agora avermelhado, os pés enroscados com um fio de áudio que corria pelo chão, o escritor vacila, desequilibra-se e desaba sobre o sofá, quase caindo por cima do Quartin.
-- Porra! Amaral – vocifera –, você nunca arruma esta sala. É fio para todos os lados. – E virando-se para o grandalhão Quartin: -- Desculpe-me, Ernesto, machuquei-o?
-- Não. De maneira nenhuma.
A sala de música de Amaral Tedesco mais parece um estúdio de televisão, cabos e fios por todos os cantos, e aparelhos eletrônicos em diversas posições, até parafusados ao longo da parede dos fundos. O audiófilo tem, para essa aparente bagunça, uma explicação:
-- Nada aqui é por acaso nem por descaso. Os equipamentos, assim tão próximos, fazem a posição ideal de interação: quanto mais curta a distância entre os elos do sistema, menos o tamanho nos cabos de interligação. Cabos, mesmo blindados, funcionam como antenas e captam sinais de radiofrequência, os quais são manifestados em forma de deformações do sinal original gravado nos discos. Nasalidade e estridência são as mais comuns.
O quarteto de cordas de Schostakovich continua: ouve-se agora o Nocturne, saudosista, nostálgico, trecho curto. Especula Xandi: “-- Possivelmente evocando raras e fugazes situações de felicidade.” Segue-se-lhe o tema da Marcha Fúnebre, longamente desenvolvido.
O anfitrião, ainda com a garrafa de vinho na mão e um saca-rolhas artesanal, feito de madeira, contendo engenhoso dispositivo para sacar a rolha da garrafa sem qualquer esforço nem estampido, debruça-se sobre a mesinha de ripas de pinho. Capricha no ritual: torce a primeira alavanca do saca-rolhas; com vagar, uma volta, duas, quatro, até o fim da rosca; em seguida roda a segunda alavanca, a de baixo, até a rolha desprender-se por completo do gargalo. Retira a cortiça da engrenagem, examina-a com atenção, leva-a próximo ao nariz, aspira a aura e limpa com um pano branco de linho a borda da garrafa. Volta a inclinar-se sobre a mesinha, e de uma bandeja de prata retira um cálice de cristal no qual derrama um pouco de vinho. Torna a aspirar o buquê, uma, duas, três vezes, balançando a cabeça de um lado para outro a fim de que o olfato cubra toda a superfície cilíndrica do cálice. Coloca o cálice contra a luz e examina cor e transparência. Por fim, leva-o à boca e suga pequena porção, que deposita sobre a língua espalhando-a até os mais afastados sensores do paladar. Bochecha e bebe. Depois expira lentamente para sentir o retrogosto. Então diz:
-- Este está bom. Tem buquê, denotando carvalho. Encorpado. Sem dúvida, desenvolveu-se bastante no ano de repouso que passou. É, possivelmente, o terceiro melhor Merlot produzido no País. E o mais barato, incrível, não?
-- Saúde ao camarada conde de Amassapão! Nascido nos semiaridos sertões do norte do Estado, com canícula e quarenta graus à sombra, um bichinho assim medito a entender de vinho! Nordestino é antes de tudo um atrevido!
-- É antes de tudo um forte, como constatou Euclydes da Cunha – protesta Ernesto Quartin. – Admiro muito o povo de vocês: paciente, mas determinado, cordato, mas valente, subalimentado, mas resistente, inculto, mas inteligente, subdesenvolvido, mas criativo. Um pouco do espírito judeu, um tanto do caráter oriental, a resistência africana e a alegria tupi-guarani. Uma mistura extraordinária!
-- Está enganado – responde-lhe Amaral.
-- Enganado? Indaga atônito Quartin.
-- Não me refiro ao que você disse nem poderia. Fez um rasgado elogio à nossa gente. Respondo ao Xandi.
-- Enganado por quê? Só se for porque omiti que o conde de Amassapão, proletário fabricado, foi preso por terrorismo? – provoca o escritor.
-- Nunca fui terrorista nem sequer comunista. Fui preso por ter praticado um ato de caridade. Por ter abrigado em minha casa uma pessoa assustada, faminta, e além de tudo doente, que fugia da morte certa pela polícia política. Fui preso por ter praticado o Evangelho de Cristo. Se eu houvesse feito como tantos cristãos vendilhões do templo que andam por aí, se apenas pregasse os ensinamentos do Homem e os não praticasse, certamente não teria sido aborrecido, apesar do marxista confesso e convicto que sou.
-- Li Karl Marx e Sigmund Freud – tenta aliviar o clima de querela Quartin, notando a irritação de escritor –, li-os no original, por exigência de meu pai, para eu não esquecer o alemão. Meu pai considerava esses dois, e mais Charles Darwin, os verdadeiros messias da Humanidade. Dizia que Marx apontou aos povos o verdadeiro e único caminho da salvação, Freud, o da salvação do homem enquanto pessoa, e Darwin nos desendeusou, remetendo-nos à nossa condição animal, de onde nunca nos devíamos ter afastados.
holbein menezes- utilizador dedicado

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