Allegro ma non tanto...

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Allegro ma non tanto...

Mensagem  holbein menezes em 20/5/2010, 10:48

Meus diletos amigos da Administração; Caro Sr. Mediador.

Ao aproximar-me dos 88 anos, que passarei a vivê-los (ou suportá-los) a partir do próximo dia seis de junho quando completo o ciclo dos 87, penso que talvez seja o tempo de começar a pensar nas minhas "memórias" (urgh!). Mas memória de audiófilo é audiofilia... Ah! Ah! Ah!, o "ovo de Colombo".

Na terrível hipótese de vocês interessarem-se, e concordarem, criaria este novo tópico para sítio no qual plantaria algumas asneiras que cometi no tempo em que era mais moço, e esperançoso.

Encabula-me informar que em tempos bem pretéritos criei - criar é força de expressão - escrevinhei uma novelinha a que dei o título de Allegro ma non tropo, cujo ambiente situa-se dentro das quatro paredes de uma sala de reprodução eletrônica do som musical. Todos vocês sabem e experimentam o às vezes confuso e incompreensível convescote que se desenvolve entre amigos e colegas enquanto "ouvem" o equipamento do anfitrião sob as bênçãos de compositores de obras clássicas. Uma babel.

Pois bem, Allegro ma non tropo que se passará a chamar Alegre mas não tanto... com reticência a fim de atapetar intenções subjacentes, o novo Alegre poderá ser divulgado em forma de folhetim, de quinze em quinze dias ou como vocês decidirem.

Para o endereço particular do António Moura estou a remeter a 1ª Parte da novelinha, primeira parte que poderá ser dividida em dois capítulos para não ficar tão cansativa a leitura.

É isso aí. Fico no aguardo da decisão de vocês.

Holbein.

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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  Convidad em 20/5/2010, 11:16

Caro Holbein,

Embora eu ache que ainda é muito jovem para começar a pensar em memórias, fico ansioso por ler mais alguns dos seus escritos.

Abraço de Lisboa,

Mário

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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  BVG em 20/5/2010, 11:41

Já estou ansioso para o ler

BVG
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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  Convidad em 20/5/2010, 12:07

Venham elas.....

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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  vlopes em 20/5/2010, 12:50

Uma enciclopedia com 88 anos, é um tesouro que deve ser partilhado.
ficamos á espera.

vlopes
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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  Blink em 20/5/2010, 12:57

ALLEGRO MA NON TANT0...



Por Holbein Menezes.

1º PARTE.

Na sala de música da casa de madeira da rua de piçarra ouvem-se acordes de música. Sons estranhos. São atonalidades: ruídos soturnos, roncos, pancadas secas, sopros, arranhar de cordas, gemidos, resfôlegos. Sons produzidos por quatro contrabaixos. O dono da casa, Amaral Tedesco, um senhor de setenta e um anos, vira-se para o escritor Xandi Cabral, em companhia de quem ouve música, e diz:

-- Sabe, Xândi, são duas coisas que sempre gostei de fazer: ouvir música e escrever.

-- É? – pergunta indiferente e seco o escritor anarquista.

-- É – responde o audiófilo, animando-se. – Ouço música mais de quatro horas...

-- Todos os dias?

-- Todos os dias. Um pouco de manhã, depois das oito, e um tanto mais à tarde, geralmente até as dezessete horas.

-- Mas você nunca estudou música, estudou?

- Não. Não tive oportunidade, e até hoje lamento. Quando eu era criança, meu pai não possuía recursos para pagar as aulas. Agora, que eu próprio tenho os recursos, sinto-me velho, acho que não dá mais. Mas ouço bastante música; que é uma forma de compensação. E também leio e escrevo sobre música. Aliás, no momento, escrever é meu hábito maior. Sempre estou escrevendo alguma coisa, até mesmo enquanto escuto música.

-- Você nunca publicou um livro?

-- Nunca.

-- Nisso estamos empatados.

-- Ora, você pelo menos publicou um...

-- É verdade... Mas sobre o que você está escrevendo agora?

-- Uma espécie de conversa...

-- Conversa?

-- Colóquio, um conto curto, só com diálogos. Narro uma reunião de pessoas em redor de uma mesa de comes e bebes, mais bebes do que comes, cada conviva a declinar, e justificar, os dez compositores clássicos da sua preferência. Mas preferência de fato; enunciar somente os compositores que cada um ouve diariamente.

-- Diariamente, não digo, mas ouço uma vez por semana pelo menos três compositores: Bach, Beethoven e Mozart.

-- Pois eu achava que você curtia também Monteverdi. Fala com tanto entusiasmo de L`Orfeo?

-- E curto. L`Orfeoé uma obra de gênio: para mim é primeira ópera sinfônica da história. Mas aqueles três são os meus preferidos do dia-a-dia. De Bach, o que mais ouço são as Suítes para violoncelo solo. Tenho gravações com três violoncelistas, inclusive a do Anner Bylsma, que utiliza um violoncelo barroco. Sabe? O violoncelo barroco é três centímetros mais comprido do que os violoncelos modernos, e a corda de Lá é de pura tripa de carneiro. Produz um timbre muito especial: um roufenho resinífero quase sem harmônicos, muito próximo da viola de gambá. Também ouço com frequencia as Sonatas e Partidas para violino desacompanhado. E até podiaincluir os Concertos de Bandenburg. De Beethoven, gosto muito das Sonatas para pianoe dos quartetos de cordas, com preferência especial para o Opus 131.

-- Você não gosta dos quartetos finais?

-- Gosto, o Opus 131 é um desses. Mas gosto mais dos primeiros, são mais mozartianos. Ouço também com alguma frequência um dos cinco concertos para piano, mas aqui, só se executados em piano da época. Adoro o som do pianoforte.

-- Você não ouve as sinfonias de Beethoven?

-- Pouco. Gosto mais da sua música de câmera.

-- Engraçado...

-- Engraçado o quê?

-- Um musicista moderno... E de Mozart, o que você gosta?

-- De Mozart, gosto de tudo, até das óperas.

-- Qual a ópera dele que você mais gosta

-- Idomeneo.

-- Idomeneo? Eu pensei que fosse Don Giovanni,considerada a obra-prima de Mozart?

-- Pois pensou errado. A obra-prima de Mozart, para mim, é Idomeneo.

-- Por quê?

-- É mais, digamos, ideológica. Entenda-me: Há uma pequena particularidade situacional que envolve essas duas peças que, pelo menos para mim, pode ter influenciado- na escolha dos temas, marcando-lhes o caráter ideológico. Veja: nos dias em que ensaiava Idomeneo, Mozart escreveu ao pai: “... mas o príncipe e a orgulhosa nobreza tornam-se cada vez mais insuportáveis.”; ao passo que seu estado de espírito era outro quando compôs Don Giovanni. Nessa ocasião, ele escreveu ao seu amigo e provedor financeiro, Gottfried Von Jacquin: “... porque pertenço demais a outras pessoas, e muito pouco a mim mesmo. Não preciso lhe dizer que esta não é a vida que prefiro.”

-- Só por isso?

-- Entenda, Xandi: essa contradição íntima, entre a necessidade (nascida talvez da relação paterna) de galgar a nobreza, de ser ele Mozart também um nobre, e o que lhe permitia essa mesma nobreza, de apenas ser ele um músico a serviço dessa aristocracia, ainda que músico talentoso e aclamado – refletida de forma muito nítida nos dois desabafos epistolares -, para mim, isso marca a escolha dos temas das duas óperas, e também as músicas. Enquanto em Idomeneo Mozart é sinfônico em todos os atos, na ópera Dom Giovannisó consegue sê-lo no final do terceiro ato. No resto da ópera, a música segue o texto como coadjuvante. Em Idomedeo, talvez recebendo a influência de Monteverdi, ele como que abre caminho para Berlioz e Wagner, em cujas óperas a música é, quase sempre, o principal. Jamais é acompanhante. Em Dom Giovanni, segue a escola italiana, em que as árias, representando as pessoas, são o principal, e nunca o contexto social, representado pelos coros.

-- Tai, é, quando nada, uma explicação original...

Amaral Tedesco e Xandi Cabral estão sentados no sofá de quatro lugares da sala de musica de Amaral; uma vasta dependência especialmente construída para a finalidade da reprodução eletrônica do som musical. Um retângulo medindo quatro e oitenta metros de largura por sete e cinquenta de comprimento e três de altura – medidas que o dono da casa, vaidoso de suas instalações, chama de proporção áurea.

A sala possui paredes duplas de madeira – costaneiras de cedro –, menos a dos fundos, que é de tijolo maciço aparente. “-- Para servir de refletor e painel de sustentação para os alto-falentes destinados à reprodução das frequências baixas.”, costuma explicar, professorando. “-- As três paredes de madeira possuem uma particularidade, são entremeadas com cinco centímetros de areia de rio, formando uma espécie de sanduíche.” Amaral explica que tal arranjo se destina a evitar as vibrações da madeira, e, em consequência, a formação de ressonâncias indesejáveis. E serve também para atenuar frequências abaixo de 100 Hz.

-- Essa sala não podia ser mais larga?

-- Não, se o pé-direito for de apenas três metros. Para evitar ressonâncias, sabe? – responde com entusiasmo. -- O tamanho de uma sala de música não deve ser arbitrário nem fortuito. Tem que obedecer a certa proporção: para cada metro de pé-direito, um vírgula seis para largura e dois vírgula cinco para o comprimento.

-- Por que você não escreve um livro sobre alta-fidelidade? – inquire o escritor, que sempre faz a pergunta toda vez que o amigo fala dos parâmetros técnicos de sua sala.

Mas Xandi Cabral já conhece a resposta e por isso, sem esperar tê-la de novo, acomoda-se melhor no assento, cerra os olhos e concentra-se na música, tentando entendê-la.

O dono da casa é homem de estrutura baixa, cabeça de nordestino – chata e grande –, rosto oval, olhos dilatados e vivos. Passou dos setenta anos. Possui largo bigode e barbicha, ambos embranquecidos. Ainda lépido, levanta-se a abaixa-se com facilidade. É inquieto.

A casa onde mora possui oito cômodos, além da dependência de lazer: um módulo à parte e atrás da residência, módulo metade ocupada com a sala de som e metade com o ateliê de pintura da mulher Anita Tedesco, artista surrealista, de lavra inconsciente, do gênero fantástico. A sala de Amaral Tedesco é famosa no meio intelectual da cidade. O escritor Xandi Cabral é o seu mais assíduo freqüentador.

-- Você possui a mais supimpa sala de música de Ilhópolis – comenta Xandi, com seu jeito de falar –, talvez a única veramente estruturada para ouvir-se música. As outras que conheço são tão-somente espaços adaptados.

-- Também na ilha só existe a minha...

-- Certo. Mas incluo na lista, as salas públicas. O nosso maior e mais importante teatro, por exemplo, apesar das custosas reformas porque há passado, é dotado de péssima acústica. É o terror dos artistas, que reclamam contra a falta de retorno, o que dificulta a orientação em cena. E o som do cinema? Desse nem é bom falar; é simplesmente horrendo. Mas não é por esse motivo que sua sala é impar, é, sobretudo, pela excelente qualidade da música que aqui se ouve mercê da sua exemplar coleção de discos, repertório eclético em chapas importadas.

Amaral gosta da referência a sua discoteca, mas nada comenta. Naquele momento escutam os dois um dos discos recém-chegados do Rio de Fevereiro: a raridade do Quarteto para contrabaixos, do compositor alemão Erich Hartmann, executado por instrumentistas da Orquestra Filarmônica de Berlim.

Amaral, embora não se proclame, tem-se um vanguardista. A música dodecafônica é o gênero que diz ser da sua preferência. Invectiva a mesmice das músicas barroca e romântica. Xandi Cabral, seu companheiro mais constante de audição, desconfia que, por baixo da crítica que o amigo faz à música tradicional, e à sombra do tipo complexo da composição moderna, que ele diz apreciar, o audiófilo esteja exibindo-se perante os colegas de audição. Especialmente os músicos da cidade, que só apreciam o barroco. “-- O que ele tem é inveja dos músicos porque dominam a técnica da leitura musical e o Amaral, não.” – critica à socapa.

-- E quais são os seus dez compositores preferidos, Amaral?

-- Um deles é Bela Bartók. Gosto de tudo dele mas minha música de cabeceira desse compositor são os seus Quartetos de Cordas. Ouço um deles por dia, todos os dias.

-- Todos os dias?

-- Todos os dias. Uma vez gravei os seis quartetos e levei gravador e fita para umas férias na Serra de Itaipava. Antes de dormir, com fone de ouvido, ouvia um quarteto inteiro. Anita estrilou, disse que eu devia ter casado com Bartók...

-- E quem mais?

-- Quem mais o quê?

-- Quais os outros compositores da sua preferência?

-- Na letra bê, Bernstein.

-- O maestro?

-- Sim, Leonard Bernstein. Ele compôs três sinfonias, alguns poemas sinfônico e uma missa. Gosto especialmente da Terceira Sinfonia, também chamada de “Kaddish”. Da letra bê salto para a letra agá, de Hindemith. Adoro os sete concertos para orquestra de câmara desse alemão de Hesse. Outro que gosto muito é Janácek, sobretudo os dois quartetos para cordas: o número um, também conhecido como A Sonata de Kreutzere o número dois, igualmente conhecido como Cartas Íntimas.

-- Mas a peça mais conhecida dele é a Sinfoneitta para orquestra...

-- É. Uma das obras composta no final de sua vida. Mas não gosto dela não. Depois do jota vem o cá de Kodály.

-- Não conheço nada de Kodály.

-- A suíte para orquestra Hary Janosé a sua obra mais divulgada, mas gosto mesmo e gosto muito são da Sonata para violoncelo solo e a Serenata para dois violinos e viola.

-- Em ele vem Lalo e em eme vem Mozart...

-- Em ele vem também Liszt e em EME, Malher. Ouço os dois, mas esporadicamente. Estamos falando de música ouvida com certa frequência, não é? Nessas condições, do cá salto para o ene de Nielsen: Carl Nielsen. Gosto muito dos quatro quartetos para cordas desse dinamarquês, muito mais do que das suas sinfonias, que foram seis mas só se divulgam cinco.

-- Parecido com Bruckner, que compôs onze sinfonias e numerou apenas nove. E na letra pê, já que se não conhece nenhum compositor com a letra ó?

-- Tem o Offenbach e um tal Oswald...

-- Do Offenbach, e da Gaité parisienne, eu já ouvi falar, apesar de nada ter escutado dele, mas desse Oswald... Oswald de quê?

-- Henrique Oswald, e, pasme! Um brasileiro que compôs várias óperas e algumas peças orquestrais.

-- Brasileiro?

-- Nascido e morrido no Rio de Janeiro. Compunha à européia...

-- Como o Carlos Gomes?

-- Sem comentários. Na letra pê eu poderia destacar Prokofiev, que é o mais conhecido dessa letra, mas não o ouço com constância. E assim não vale. Nem na letra erre, o Ravel. Salto para a letra esse, e aqui destaco o Schoenberg e o Shostakovich.

-- Do Shosta eu também gosto.

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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  Convidad em 20/5/2010, 13:13

Agora, queremos mais. Muito mais.

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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  Orion em 20/5/2010, 15:23

Venham tais relíquias, será sempre uma honra.

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Allegro ma non tanto

Mensagem  indiemania em 20/5/2010, 18:44

Palavras para quê, estamos perante um jovem que partilha as suas experiências pela comunidade de forma sublime
Um bem haja
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Mais um capítulo.

Mensagem  holbein menezes em 25/5/2010, 12:31

Ora, como estou a notar que os interessados em ler a novelinha já "esgotaram", vai a segunda parte:
2º PARTE

-- Schoenberg compôs A noite trasfigurada, e só isso teria bastado para sua consagração. Mas compôs também quatro quartetos para cordas que são palatáveis; para quem gosta de música moderna, é claro.

-- Você não inclui o Stravinsky na letra esse?

-- Nem o Sibelius, o Schubert, os Strauss... A letra esse é rica em bons nomes. Gosto do Sibelius mas não o ouço muito. Do Richard Strauss aprecio a ópera Salomé. Essa, ouço-a pelo menos uma vez por mês. Tento gostar de Elektra mas não peguei ainda uma boa interpretação dela. Nas gravações que ouvi, sinto que os motivos são dissociados do tema. Acho que os maestros que ousaram levar essa ópera confundiram atonalidade, que é caráter do som, com surrealismo que é forma de manifestação do tema.

-- E do Shosta? – perguntou muito de propósito Xandi, para fugir das abstrações teóricas de Amaral.

-- Da música desse gosto muito, principalmente dos quinze quartetos para cordas, de todos, e das catorze sinfonias, especialmente as ultimas cinco.

-- Thaikovsky nem pensar, não é? E em vê?

-- Em vê, Villa-Lobos. Definitivamente Villa-Lobos, representado não só por sua obra para piano, que é soberba, como também pela extraordinária obra para violão, e, até um certo ponto, pelos dezessete quartetos para cordas...

-- Que “certo ponto é esse?

-- Até o abandono dos motivos folclóricos, das cirandas...

***

Abrindo, de supetão, a porta da sala de música entra festiva e gigantesca e espalhafatosa a figura de Ernesto Quartin. Sua voz de muitos decibéis encobre a música que os dois estão a ouvir:

-- Da rua –, grita Quartin – ouvi um som muito esquisito. Mas não consegui identificar a composição. À distância, os acordes soturnos me pareceram de violoncelos; agora vejo que são contrabaixos. De quem é essa coisa?

-- Boa-tarde, Ernesto – cumprimenta Amaral ao recém-chegado. – Você conhece Xandi Cabral, não conhece?

-- Porra, Amaral! Você está esclerosado. Quantas vezes já nos encontramos aqui, o escritor e eu. Como está Xandi?

-- Bem, obrigado. E você, Ernesto?

-- Vou tocando. Mas, não me responderam de quem é essa música. Parece saco de gatos...

-- É o Quarteto para contrabaixos, de Erich Hartmenn, um compositor alemão de vanguarda – informa o audiófilo. Os instrumentistas são todos membros da Filarmônica de Berlim.

-- Não conhecia. Vamos ouvi-lo – e dizendo isso Ernesto sentou-se a um conto do sofá de quatro assentos.

Na sala, música e conversa mantêm-se concomitantes, gerando uma espécie de septeto sui generis: vozes em diálogo e, no fundo, os instrumentos executando a composição a qual só raramente assume o primeiro plano. O diálogo parece ser mais importante.

-- Jamais imaginei ouvir um concerto para contrabaixo. Para mim esse instrumento destina-se a marcar ritmo nos pequenos conjuntos jazzísticos, e servir de peso no balanceamento tonal das orquestras sinfônicas – observa Ernesto Quartin.

-- Concordo inteiramente – apóia Xandi Cabral, com a capa do disco na mão. Xandi gosta de ler os comentários das contracapas. A primeira coisa que faz, quando um disco é posto no toca-discos, é tomar a capa e ler o que nela está escrito.

-- É engraçado – comenta Amaral noutra direção. Já observara a mania do companheiro, e era a ele que tencionava criticar – nunca leio os comentários dos álbuns. Aliás, prefiro não conhecer a historia da composição que estou a ouvir e nem sequer saber o nome do autor. Dessa forma, sinto-me mais livre para imaginar o que o compositor pretendeu dizer com a composição.

-- O quarteto de contrabaixo desse alemão (é Hartmann o nome do homem? – indaga Ernesto, sem esperar resposta) –, apesar da excelente qualidade dos músicos, transmite pouco, emocionalmente. Acho que por causa do tom escuro dos instrumentos, em frequência baixa, dando a impressão de que o motor do toca-disco está um tanto alterado para menos. Chega a ser irritante.

-- É verdade, chega mesmo. Mas como faz bem à gente um grave profundo e bem articulado! – exclama o audiófilo Amaral.

De há muito Xandi Cabral desconfiava de que Amaral é, sobretudo, um vaidoso do seu sistema de som e dos seus instrumentos eletrônicos. Que lhe custaram muito dinheiro. Segundo o escritor, para o audiófilo a boa e fiel reprodução do som tem mais importância do que a qualidade da música. Na ausência de Amaral costumava comentar Xandi: “-- Não que ele não goste de música ou não se sensibilize com música. Gosta e sensibiliza-se. Mas o aspecto da perfeição do som, a técnica do sistema de reprodução eletrônica gratifica-lhe muito mais.”

De fato, comum era ouvir-se do dono da casa, ao meio de uma nota bem reproduzida:

-- Que transparência! Que gostosa ilusão de palco! Parece que instrumentos e instrumentistas estão ali. É só levantar e apertar a mão dos músicos.

Xandi Cabral escutava tais manifestações de entusiasmo sem fazer comentários. Sabia que o amigo falava para si, para convencer-se da excelência do seu equipamento de som. Xandi acreditava que Amaral ainda se mantinha inseguro a respeito da qualidade de sua reprodução, insegurança que talvez se devesse à dubiedade do caráter do audiófilo. “- Porque” – pensava Xandi – “essa mania de perfeição só pode representar insatisfação íntima ou espelhar incertezas pessoais, falta de confiança.”

-- Os quatro contrabaixos nesse lado do disco – observa Amaral Tedesco –, servem melhor à música de Helge Jorns do que ao barroco de David Funck. Na música antiga os contrabaixos não conseguem declamar a melodia com clareza. Nesse Móbile Perpetuum também. Nota-se que o compositor quis aproveitar, como percussão, o pizicato das cordas. Porque, por um lado parece haver determinação de ferirem-se as cordas com vigor, e, por outro, bater na caixa de ressonância dos instrumentos, criando esse som indefinido. É certo que a música ganha eloquência e...

-- Parece que batem – fala Ernesto Quartin, levantando-se e indo abrir a porta.

Com efeito, é Anita Tedesco que entra com uma bandeja na mão. Vai dizendo, risonha e oferecida:

-- Licencinha, licencinha, Senhores, e desculpem interromper. Trouxe um pouco de vinho para esquentar a audição. Abri, querido – disse, dirigindo-se ao marido –, uma garrafa de Petite Syrah, da safra de 1986, da Adega Medieval. Trouxe também uns canapés. Espero que gostem.

Anita é mulher de pouco mais de sessenta anos, baixa como o marido, guardando ainda traços de esplendorosa beleza. Olhos cor de avelã, tez clara, aveludada, sorriso aberto, e extremamente cativante. Artista de grande criatividade, praticando técnica muito pessoal: utiliza o bico de pena em nanquim para contornar e elaborar complexas e fantásticas figuras a partir de manchas espontâneas multicoloridas de tinta aguada sobre papel ou tecido. Sem ordem predeterminada. Sob o impulso do inconsciente cria criaturas de um mundo alucinado e caótico: meio bichos, meio árvores, meio gente e monstros e duendes e fantasmas e aleijões, de aspectos por vezes horripilantes. Mas que, ao mesmo tempo, exibem, paradoxalmente – talvez espelhando o mundo interior da artista –, candura e inocência e alguma sensualidade: porque os pés desses criaturas – especialmente os pés, a base de sustentação da estrutura dos seres humanos –, são revestidos de acolchoadas sapatilhas de pano. Mas as mãos, ou não possuem dedos ou os têm em forma fálica. Jamais garras, nos dois casos.

-- Como vão as artes plásticas, Anita? – pergunta o escritor.

-- Do jeito que você sabe – responde. – Muito trabalho, pouco resultado. Tudo muito caro e venda nenhuma. Também com essa crise, quem é que vai investir em arte, não é?

-- É, está tudo de fato muito caro – concorda Xandi.

Xandi Cabral é autor do livro, Rocky, meu cão, meu único amigo, romance de fundo anarquista, descrevendo uma sociedade sem poder formal, sem autoridade constituída, sem propriedade privada, sem moeda, sem códigos de comportamento nem religiosos. Um regime libertário, no qual os animais irracionais, principalmente os cães, têm direitos iguais aos dos homens, e todos, homens e animais são comuns perante lei nenhuma. O sonhador dessa utopia licenciosa não aprecia a arte de Anita, ou a não compreende, embora não o expresse em sua presença.

Para o marido da pintora, o anarquismo de Xandi Cabral tem muito de necessidade de afirmação. Exprime seu desgosto por não pertencer ao alto escalão da sociedade. “-- Porquanto” – julga Amaral com seus botões –, “no fundo Xandi é conservador, desde seu estilo adjetivoso de escrever, com a esnobe preocupação vocabular, ao trajar com aprumo, que traem seu anarquismo de fachada. Indicam o desejo inconsciente de um dia ser também ele burguês bem-sucedido.” O fato é que o diálogo entre o escritor e a artista fica nas amenidades de cumprimentos e bom-tom.

-- Com licença – desculpa-se Anita – tenho visitas lá dentro.

Sai. A sala de música de Amaral situa-se à parte da casa de morada, na parte de trás, afastada alguns metros. Como fora construída para a finalidade de reprodução de som, as exigências acústicas prevalecem. Por razão disso, não possui janelas nem aberturas, só a porta de entrada e de saída, por onde a mulher some.

--Vamos ao vinho – fala o anfitrião para os visitantes.

Urra ainda no ambiente de música de Amaral, a música de Hartmann, agora posta em segundo plano. Os três amigos brindam com a expressão “Saúde!”, batendo as taças de leve uma nas outras. Provam o vinho, degustando-o. O dono da casa mostra-se mais rigoroso na pantomima, segue o ritual: olha o vinho através do cálice, examina cor, limpidez, presença ou ausência de efervescência, densidade e viscosidade. Leva o cálice ao nariz para sentir o buquê. Recolhe à boca um gole, espalhando-o por todo o órgão gustativo: com a ponta da língua examina o teor de doçura, com a parte posterior, a sensação de amargo, e nas bordas laterais, afere a acidez. A safra de 1986 é considerada pelos entendidos como a melhor de todos os tempos da vinícola tupiniquim.

Amaral Tedesco não protesta se o intitulam enólogo, além de técnico em alta-fidelidade, e carpinteiro. Nos últimos tempos, também anda aceitado satisfeito, o epíteto de musicólogo, com o qual alguns membros da orquestra de cordas da cidade o estão a qualificar. Mas a sua maior vaidade é ter-se como um bom entendedor e apreciador de vinho. Com uma particularidade: dedica-se a cultuar somente vinhos brasileiros. Na sua adega subterrânea, possui perto de seis centenas de garrafas das mais variadas vinícolas, e safras, compreendendo uvas de diversas castas, entre as quais a Petite Syrah que estão tomando. Um vinho encorpado, com coloração vermelho-escura.

-- Não está ainda no ponto ótimo de desenvolvimento – pontifica Amaral. – Só tem seis meses de descanso em garrafa, que é muito pouco para os vinhos dessa uva, normalmente tânicos e alcoólicos, quando jovens. Descansados mais tempo, melhoram consideravelmente.

-- Para mim, está divino! – trombeteia Quartin.

-- Excelente! – exclama Xandi, acostumado a só beber vinho de colônia. – Muito bom mesmo! – completa.

As dissonâncias de Hartmann não agradam, nem a Xandi nem a Quartin. Amaral tenta interessá-los:

-- Prestam atenção para este movimento largo. Tem duração curta, mas é profundamente triste, quase desesperante. Contrastando com a banalidade do Allegro anterior e do Presto que se seguirá. Aliás, o concerto todo dura menos de dez minutos. Hartmann, como a maioria dos compositores da atualidade, tem pouco fôlego.

-- Carecem é de talento e competência, isso sim – responde Ernesto Quartin, para quem a prolixidade de Mahler é sinônimo de genialidade.

-- A propósito, Quartin, quais são os seus compositores preferidos? – pergunta Amaral.

-- Disparado, Mahler, especialmente a Segunda Sinfonia e a Oitava, a das “Mil Vozes.”

Gosto quase igual de Bruckner, destacando desse a Quarta e a Nona. Gosto também...

-- Do Bruckner aprecio o Quinteto para cordas e o Quarteto em Dó Menor– informa Xandi Cabral.

-- Bruckner compôs pouca música de câmara. Além disso, há um Intermezzo e um Rondo.

-- Quem gosta de Bruckner gosta de Wagner – palpita Amaral.

-- Quem gosta de Bruckner é porque gosta de Berlioz. Primeiro, gosta-se de Moteverdi, que apesar de nunca ter composto uma sinfonia, é, na minha opinião, o primeiro sinfonista da história. Parodiando a Bíblia eu diria: Monteverdi gerou Berlioz, que gerou Wagner, que gerou Bruckner, que gerou Mahler...

-- ... que gerou Stravinsky, que gerou Shostakovich. Ora, assim não dá, Ernesto. Cada compositor é produto de compositores anteriores. Não há compositor de geração espontânea – contesta Xandi Cabral.

O escritor já se serve da segunda taça de vinho. Bebe vinho aos grandes goles, como se bebesse cerveja, diz, “-- Para sufocar angústias.” Xandi Cabral é pessoa problemática. Embora casado, vive solteiro e solitário na casa de praia. Pai de um casal de filhos, um homem com quase quarenta anos de idade mas ainda dependente financeiro do pai, e a filha menor de idade e viciada em cocaína. Dão-lhe profundo desgosto. O escritor, quando está de pileque, costuma lamuriar-se: “-- Sou cônjuge mas não sou marido, sou progenitor e ainda não tenho filhos, morada eu tenho, duas, conquanto não resida em nenhuma. Mantenho de combustível três carros, e ando de ônibus, sou autor de dez livros e escritor de apenas um, que não me rende nada. Na verdade, não foi na sorte do poeta que o urubu pousou. Excretou mesmo foi na minha cabeça!”

Chega ao fim o lado dois do long play para quartetos de contrabaixos. A música de Helge Jorns, Móbile Pepetuum, merece o seguinte comentário de Ernesto Quartin:

-- Aquele começo em pizicato despertou em mim a idéia sinistra de soldados marchando, e do meio para o fim, soldados correndo. Musiquinha besta e insossa.

-- A música moderna, e aqui incluo o roque pauleira, não é para ser compreendida. É tão caótica quanto a vida nas grandes cidades. Carece apenas ser aceita.

-- O Logs, de Paul Chihara – comenta por sua vez Xandi Cabral, ainda com o envelope do disco na mão –, não passa de ingresias, gemidos, chiados, zunidos, canglores, batidas, sopros de objetos arrastados, barulhos imateriais dispostos sem sequência nem consequência. Um dos executores afirma aqui que a música remete à meditação zen-budista. Daí, talvez, aquela sonoridade imaterial.

O escritor gosta de usar a palavra imaterial para significar o que não pode ou não consegue definir. Intitula-se a ele também uma criatura imaterial, referindo-se à indefinição de sua vida. Conta: “-- Saí de casa, menino ainda, para fugir da severidade de meu pai, o coronel Chico de Alcântara, primogênito de meu avô, o terrível Coronel Zé Sales de Alcântara, dono absoluto das mil léguas da fazenda Figueiredo, no município de Desunião. Desunião é uma ilha singular, não porque cercada de água, mas em virtude de ser arrodeada de areia por todos os lados que lhe dão acesso: ao sul pelo leito seco do Ria Jaguari, e ao norte, pelo álveo do Desunião, um braço do Jaguari. O Desunião vai além, circunda a cidade a que deu o nome. Quando há inverno e se as chuvas forem intensas, tanto o Jaguari quanto o Desunião transbordam e a cidade fica, ai sim, ilhada. Na estiagem, tais rios secam e a cidade é então cercada de areia”.

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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  Convidad em 25/5/2010, 14:35

Muito bom. Óptimo.

E ainda houve espaço para falar da beleza de uma mulher, duma sociedade em que os animais (cães) teriam os mesmos direitos que os homens, e do anarquismo de fachada.

Estou de barriga cheia.

Obrigado.

Mário

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Dedicado ao Holbein Menezes

Mensagem  TUTUBARAO em 1/6/2010, 07:32

Aconteceu nesse fim de semana o primeiro evento DIY FEST RIO que temos notícia no Brasil e dedicamos esse evento Ao Mestre Holbein Menezes. No Brasil todos sabem que ele é pioneiro do Diy e todos nós somos discípulos dele, influenciados por suas dicas , nada mais justo que ao conseguir realizar essa exposição dedica-lá ao Holbein.




Um marco no mundo DIY no Brasil.

Vieram pessoas da maior importância no mundo Audiófilo Brasileiro e rompemos com muitos paradigmas dos descrentes dessas soluções.

Essas mesmas pessoas , sugeriram uma série de homenagens ao mestre, entre eles estava um grande conhecedor de Músicas,O Ricardo Gondim(do web café-audio Logos Eletrônicos), a qual sugeriu que tirassemos uma fotografia juntos e escrevesse-mos: Espaço Holbein menezes.

Acontece que não previamos que centenas de pessoas comparecessem a uma sala de 150 metros quadrados nesses dois dias, por horários diversos, já nos primeiros momentos, antes da abertura , tinhamos um numero expressivos do público antecedentes a abertura. Esse número Dificultou a reunião numa mesma foto ,e no mesmo horário em que todos pudessem comparecer.Ao que tivemos a idéia ,junto Ao fotografo profissional de maior expressão No cenário Brasileiro ,captar os diversos momentos desse evento e prepearar um material com dedicação Ao mestre e envia-lo ao mesmo.

Compareceu, para grata surpresa de muitos, O filho do Mestre , ao saber que iríamos prestar essa homenagem ,ao combinar-mos no HTForum, ele veio mostrar sua adimiração a seu pai, ja que ele não poderia comparecer ao Rio de Janeiro nessa data.
Uma lista enorme de pessoas queridas se manifestaram ,solidarizando com o Diy. Foi um sucesso, pessoas de diversos lugares do imenso Brasil enviaram equipamentos para amostra, vindo alguns e conseguimos montar vários setups para demostração.
Um conhecido fabricante de valvulados e reconhecido no mundo todo esteve ali também, O Eduardo Lima da Audiopax, certamente por ter sido um Diyer antes mesmo de ter sua marca famosa.


A montagem
[img:a694]http://www.audiopt.net/[/img]


Momentos iniciais














A PEDRA FUNDAMENTAL, PIONEIRISMO



Abraço do TUBA!

TUTUBARAO
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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  BVG em 1/6/2010, 08:16

muito bem

BVG
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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  Blink em 1/6/2010, 08:30

Parabéns pelo vosso evento, pena ser tão longe e eu estaria aí.

Blink
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Re: Allegro ma non tanto...

Mensagem  Convidad em 1/6/2010, 10:21

parabens pelo magnifico evento e ao Mestre pela merecidissima homenagem.
uma belissima ideia para ser seguida aqui por estes lados...
abraços transatlanticos
Milton

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