Espaço Holbein Menezes
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Re: Espaço Holbein Menezes
Mr. Spock: "de facto começa a ser dificil para mim distinguir entre som e musica. São 2 realidades cada vez mais indissociaveis."
Não considero não, meu Caro Mr. Spock: som é o produto de vibrações, produto que pode ser tão irritante como esses sons bárbaros das bombuzelas africanas; música é cultura pois é a escrita dos tons, escrita tanto mais profunda e agradável quanto mais genial for o autor dela. Tal qual as letras dos alfabetos, que são resultado de convenções entre pessoas para o mero efeito da comunicação ao contrário da escrita, que é prerrogativa somente dos criadores .
Coisas inteiramente dissociáveis, para usar parte do seu adjetivo.
Holbein.
Não considero não, meu Caro Mr. Spock: som é o produto de vibrações, produto que pode ser tão irritante como esses sons bárbaros das bombuzelas africanas; música é cultura pois é a escrita dos tons, escrita tanto mais profunda e agradável quanto mais genial for o autor dela. Tal qual as letras dos alfabetos, que são resultado de convenções entre pessoas para o mero efeito da comunicação ao contrário da escrita, que é prerrogativa somente dos criadores .
Coisas inteiramente dissociáveis, para usar parte do seu adjetivo.
Holbein.
holbein menezes- utilizador dedicado

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Re: Espaço Holbein Menezes
Meu caro Holbein
Desfruta da musica quando a lê ou quando a ouve
Imagine um mundo de surdos. Existiria música ?
Percebo a separação que faz. Mas se é verdade que nem todos os sons se traduzem em música, não deixa de ser igualmente verdade que a musica conhece a sua expressão através do som. São indissociáveis. Não andamos a discutir a beleza da pauta.
Agora eu vou ainda mais longe e provavelmente o Holbein intuiu que era aí que eu desde logo queria chegar: para mim, cada vez mais um bom som começa a ser, também ele, indissociável da música. O que não invalida que não se possa tirar prazer da música ouvida num simples rádio de pilhas. Da mesma forma, também consigo apreciar um desenho a preto e branco. Mas para mim, apreciar certos géneros musicais, como a clássica ou o jazz, passa forçosamente pela exigência de uma reprodução sonora capaz. Quando o som não tem qualidade, não poucas vezes algumas obras se apresentam como verdadeiras “secas”. O jazz puro e duro aposta mesmo na ausência de uma linha melódica que sejamos capazes de reter. É na magnificência dos arranjos, no colorido do fraseado de cada instrumento que muitas vezes encontramos a beleza de certas obras. Uma beleza formal se quiser, mas igualmente bela. E que não é externa à música. Faz também parte dela. Na literatura também não apreciamos apenas o que se diz. Apreciamos o como se diz. Por isso o lugar único dos poetas. Têm ao seu dispor as mesmas ferramentas que nós mas o uso que lhes dão faz a diferença que nos maravilha.
Cumprimentos
Mr.Spock- Membro Audiopt

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PENDURICALHOS
Por Holbein Menezes.
(Texto escrito na Ilha de Florianópolis, Santa Catarina).
A sugestão veio de “Dom” Guilherme Werneck, de Petrópolis: pendurar na sala de reprodução do som musical algumas peças daqueles “canos” de papelão grosso próprios para enrolar tecidos. Contou-me: próximo a sua casa existe uma fábrica de confecções, das centenas que abundam na bela e aprazível cidade serrana do Estado do Rio. Ao passar certo dia em frente à confecção viu dentro da lixeira os tais tubos de papelão, uma porção deles. As pessoas temos o impulso de levar para casa objetos descartados que a intuição nos faz supor que um dia terão serventia. “Dom” Guilherme não foi exceção. Forte como é, retirou da lixeira um punhado de tubos e levou-os para casa. Que ficaram à deriva no seu depósito de sucata a espera de utilização..
É preciso que se diga que “Dom” Guilherme Werneck talvez tenha sido o primeiro brasileiro a construir uma sala destinada à reprodução do som musical. Aí pelos idos de 1960... Propriamente não construiu uma sala de música, adaptou a garagem de sua moradia ao fim. E fê-lo com muita sabedoria, experiente que é na matéria, audiófilo bem mais competente que eu, enquanto mal eu sabia instalar com correção meu sistema eletrônico prêt-à-porter, QUAD,“Dom” Guilherme construía com seus conhecimentos de eletrônica e suas mãos hábeis seus próprios aparelhos valvulados. E como tocavam, os danados!
A sala de “Dom” Guilherme tem as medidas do seguimento áureo, ainda que o pé-direito seja ligeiramente abaixo de 3 metros. Mas dentro do limite de 10% para mais ou para menos advogado pelo “sábio” Guilbert Briggs, da Wharfedale. A peculiaridade do som do Guilherme, o que sua sala tem de diferente está no número de alto-falantes. Assim como o veterano audiófilo paulista de Santo André, Euclydes Rios, Guilherme não aceita que se possa obter em condições domésticas a grandeza do som orquestral apenas com um par de sonofletores, por melhor que ele seja ou por mais respeitável que seja a marca...
Vejam: o subgrave de “Dom” Guilherme é realizado por meio de 8 (oito) woofers de 15 polegadas, quatro deles instalados em caixa de concreto de 10 pés cúbicos. É mole? Os médios são reproduzidos via um par dos painéis ribbon AKRON, fabricação do Paulo Ramos, auxiliado por 4 alto-falantes Goodmans Axion 80, imãs de 17.000 linhas! Querem mais? Agudos e agudíssimos – porque Guilherme faz questão dos agudíssimos – estão presentes graças à batelada de 8 (oito) tweeters! Chega? A especificidade dessa parafernália está na disposição dos alto-falantes na sala, não há ordem simétrica – isso não há! –, e nem todos os alto-falantes estão dentro de caixas. “Dom” Guilherme explica que a “arrumação” dos alto-falantes na sala segue necessidades acústicas, uns para reforçar a ilusão de palco, outros para “quebrar” ressonâncias indesejáveis, e um e outro para produzirem dispersão, estes, em geral os tweeters,são por isso virados para cima.
Move todo esse conjunto de falantes amplificadores brasileiros, cujo número de unidades não me lembro agora, só sei que há dois Marins, que são amplificadores transistorizados com fonte estabilizada e acoplamento direto projetados e construídos pelo Físico, Professor Eugênio Marins, da Universidade do Brasil, faz 40 anos!! E como tocam, os danados!
Mas voltemos aos tubos de papelão: um dia Guilherme resolveu dispor alguns tubos, aleatoriamente, ao longo da sua sala. Tomou um susto quando ouviu o resultado. E aí me escreveu: “Estou abismado com os resultados que tenho obtido com os tubos de papelão. Aquilo que suponho ser o que os “entendidos” chamam de sensação de “palco e arejamento”, está num patamar que, nestes quase 50 anos de audiofilia, nunca dantes havia eu conseguido.” Entretanto, a partir da instalação inicial, feita ao acaso, começou o “Dom” a fazer experiências para identificar os mais efetivos e indicados pontos para posicionar os tubos. Hoje, se confessa muito satisfeito. E por isso, bom e velho amigo que é, tem insistido para que eu repita a experiência nas minhas condições.
Foi a fome com a vontade de comer, se eu já sou dado a fazer experiências imaginem os leitores uma sugerida por “Dom” Guilherme Werneck, de quem tenho aprendido muito nos mais de 50 anos de nossa estreita e fraterna amizade. O diabo é que não descobri em lixeira alguma cá nesta Ilha da Magia os tais tubos de papelão, apesar de a indústria de confecção ser uma das duas exceções que a eficiente e exigente Prefeita Ângela Amin permite funcionar na parte ilheta de Florianópolis. A outra exceção é a indústria de informática. Quer dizer, nada que polua; daí porque Floripa é a campeã de qualidade de vida das cidades do Brasil varonil salve salve. Mas... é bom não espalharem isso.
Como quem não tem cão caça com gato, na falta dos tubos usei estojos de papelão para acondicionar maçãs. Pois! Não somos os de Santa Catarina os “reis” da maçã tupiniquim? Dependurei os estojos, dois para cada canal, um a 1 metro atrás do painel AKRON superior (lembrem-se que uso 4 AKRON Especial – sand-filled – um em cima de outro), e outro estojo, a metro e meio, mas os dois em alturas diversas; instalei um quinto estojo, também atrás dos falantes mas no meio da sala e ao meio do pé-direito. Pregados na parede dos fundos, de tijolo, 3 estojos, e no teto, já de Eucatex, 4. (Esses estojos para acondicionar maçãs possuem saliências e reentrâncias, o que beneficia sobremodo a dispersão.)
Fui ouvir o que já era bom; ficou melhor! Muito melhor! Alterou não só a ilusão de palco, os três planos – frente, meio e trás – ficaram mais definidos e o balanço tonal passou a favorecer as médias freqüências, que é o miolo sagrado, e delicioso, do som musical reproduzido. Ouvi ontem, por exemplo, o Concerto de Violino, de Sibelius, na execução primorosa do jovem virtuosse russo Maxim Vengerov, com seu Stradivarius de 1723, ex-Kiesewetter, e foi um desbunde! Estava comigo na ocasião o mestre psicanalista internacional, Dr. Victor Manoel Andrade, muito bom ouvinte, que não cansava de exclamar: “Nada pode ser melhor!”, “Como pode um som ser tão perfeito!” “Não acredito no que estou ouvindo!”
(Texto escrito em Fortaleza, Ceará).
Tive dia desses uma experiência incomum jamais dantes vivida por mim em tantos anos de experimentador do som musical. Estive em companhia do Dr. George Magalhães na casa do audiófilo José Carlos dos Santos, mais conhecido como Dedé. Que nos recebeu fidalgamente, com comes e bebes e uma inesperada qualidade de som musical. O mais intrigante som reproduzido que ouvi em toda minha longa vida audiófila. Para longas audições, talvez algo asséptico e um tanto analítico mas, ainda assim, som musical de altíssima qualidade.
O busílis, mais que busílis, estupefato é que o tratamento acústico da sala de música do Dedé é um caso..., como direi? um caso de psiquiatria. Eu disse a ele: é uma “obra” de loucura paroxítona tipo a obra louca do genial louco Salvador Dali. Mas não chega a ser paranóia como a de Dali embora eu tenha o pressentimento de que se tratam de delírios estruturados sobre frágil base ortodoxa quiçá lógica, a produzir em contrapartida qualidade final de altíssimo quilate, o que testifica a sanidade mental do Dedé e sua testosterona criativa. Nunca ouvi outro som reproduzido semelhante, ou assemelhado, nem mesmo nas dez salas da Som Maior tratadas por Acústico estadunidense. Talvez por isso mesmo...
Para começar, o José Carlos lançou mão de toda a sucata de poliestireno expandido – o popular isopor – que pôde encontrar nas sujas e barulhentas ruas de Fortaleza: pedaços de embalagens de geladeira, máquina de lavar, tevês etc.; aqui e ali a embalagem inteira; chapas de isopor de 3 centímetro de espessura, umas inteiras outras quebradas; caixas de papelão, armadas e desarmadas, grandes e pequenas, a mancheias; e placas de cerâmica, de 60 cm, de 30 e de 10, inteiras, quebradas, no chão, dependuradas, uma babel alucinada e alucinante! Sucata que cobre todas as paredes e o teto e grande parte do piso, que se lhes não avistamos nem sabemos onde ficam, adivinhamos; o piso não passa de uma vereda, menos do que um caminho, e se se não toma cuidado, puft! lá se derruba um “elemento” da complicada engenharia acústica do José Carlos.
As ondas sonoras geradas pelos falantes – duas caixinhas BW 805 de menos de um pé cúbico (apenas essas duas!) – as ondas sonoras “devem” circular ou circunscrever ou abrir caminho – sei eu lá! – no imaginado estreito “corredor” central, único ponto da sala do Dedé que não está tomado de algum material absorvente. Uma sala anecóica às avessas... das arábias. Talvez fosse melhor dizer... do Iraque invadido, a tirar pelos “restos” de objetos não identificados que se espalham a esmo. E, segundo o Dedé, tudo ali tem sua importância acústica. Quanto mais não seja, alguns “elementos” dessa parafernália são refletores e outras absorventes; agora, o que é que produz aquele equilíbrio tonal exemplar, isto é, o quanto é absorvido de som e o quanto é refletido, e o quê em cada caso, isso nem o José Carlos sabe.
Não há, pois, um plano, não existe uma ordem pré-estabelecida nem mesmo está presente a lógica dos contrários cantadas pelo Caetano Veloso: “o avesso do avesso”. É o caos embora um caos diferente uma vez que na desordem há a ordem do resultado – lá isso há! – e se o resultado é bom, como ocorre na sala do Dedé, a “ordem” deve ser boa... se não boa, própria. Própria, é o termo! Nada falta nem sobra nada ou, se pensarmos em termos de acústica acadêmica, tudo sobra e falta tudo. Uma doidice de ponta-cabeça!
A sala “parece” (parece... porque dentro dela não se enxergam seus limites) parece de bom tamanho a se deduzir por parcial visão que se tem dela do lado de fora e, quem sabe, possui forma retangular; as medidas devem estar beirando às do Segmento Áureo para pé-direito de 3 m mas o espaço “livre” de “elementos” (não cobertos pelos “elementos acústicos”, espaço que se constitui em um imaginário corredor central, corredor não, um túnel, túnel ainda não, uma corneta exponencial, talvez isso; e não é isso – é mais ou é menos isso se isso fosse o espaço livre que sobra nas cavernas de pedra tomadas por formações de estalactites) – o espaço livre não deve ter mais do que 12 m2, por aí E é por ele que se irradiam as ondas sonoras geradas a partir das duas caixinhas. Um verdadeiro escândalo!
São apenas dois assentos, uma poltrona e um banco, e se estão lá três pessoas – como estivemos nessa tarde, Dr. George Magalhães, José Carlos e eu – um dos três fica em pé, e por fidalguia do Dedé sobrou para ele, o dono da casa. Do meu assento, a poltrona central, eu ouvia um “palco” como nunca ouvi nem mesmo na “sand-filled” de triste fim. A ilusão de os instrumentos estarem ora na frente ora no meio e às vezes nos fundos do “palco” é estranhamente bem marcada, e a orientação direita e esquerda, muito nítida. Um milagre nessa torre de babel arataca...
As caixas são pequenas mas o som sinfônico é grandioso, e o grave bem articulado e profundo (como pode? duas pequenas caixinhas!); os médios de primeiríssima qualidade estão ali presentes bem no miolo da sala, e um agudo de furar os tímpanos! Por sinal, Dedé confessou-me que é fissurado em agudíssimos, o triângulo, para ele, tem que soar Triângulo com T maiúsculo, uma batida de címbalo tem que ir aos 16,000 Hz! Tarado!
E aqui registro, a bem da verdade, que o Dedé confessou-me que não entende de acústica, nadinha de nada; mas, afirmo eu, possui ouvidos privilegiados, toda a “afinação” de sua sala bem afinada é feita de ouvido. É natural que o José Carlos, em matéria de som tenha gosto próprio – de resto, todos nós temos – por isso “afina” sua sala na conformidade de seu gosto. Que difere do meu, por exemplo: gosto de um som mais “sujo”, mais “esporrento”, mais próximo da realidade desta vida barulhenta enquanto o Dedé aprecia um som musical completamente asséptico, puro e límpido, o que leva seu som para o reino dos céus... Porque o Céu deve ser assim, limpo, limpíssimo, sem barulho exterior, só o suave canto dos anjos para amenizar a ira de Deus com seus filhos ímpios cá desta Terra maluca... e de outros planetas habitados, que os deve haver, não há por que não.
Não saberei falar com acerto da aparelhagem do José Carlos, do meu assento via apenas as duas pequenas caixas e dois prés... Sim, porque o Dedé me informou que usa dois prés mas fiquei sem saber como os interconecta no sistema. Os amplificadores, no plural – que os não divisei – são todos da marca McIntosh, uma das manias do dono da sala, possui alguns não sei quantos e não sei se todos conectados... Os cabos de caixa são parrudos, grossos, fornidos mas não memorizei a marca.
holbein menezes- utilizador dedicado

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Equipamentos e Música.
Uma empresa para vender musicalidade.
Por Holbein Menezes.
A “novidade” que aponta cá no Brasil é uma possível associação entre um famoso fabricante de amplificadores a válvula e dois bambambãs das áreas da leitura dos discos e da acústica de sala.
O famoso fabricante, de renome internacional, já excursionou com conhecimento e competência e sucesso em todas as direções da eletrônica da reprodução do som musical; sabe, pois, o que é engano propagandístico de marqueteiro de aluguer a tanto por página e quanto por capa. E parece ter chegado à filosófica conclusão, depois de tantos anos de experiência, de que o melhor som musical doméstico é o que é pouco amplificado, em especial pelos bojudos e artesãos fora de moda tubos termiônicos 300B, de priscas eras. Mas não é a doença da melancolia que contaminou esse Engenheiro, ou surto de saudosismo que se traduz por desengano, é constatação prática para uso pessoal e de pessoa que gosta antes de tudo de Música.
O bambambã da boa leitura dos discos, alto funcionário de um grupo televisivo, em grande parte responsável pela implantação da técnica digital nesse grupo, convenceu-se de que não residia na mídia ela em si – seja o velho bolachão LP, seja a mui boa modalidade da fita magnética, nem também na conserva compacta tão malfalada –, convenceu-se esse “alto funcionário” de que o calcanhar de Aquiles da reprodução eletrônica do som musical estava e está na mecânica e no processo de armazenamento e leitura das conservas. Ao comparar a qualidade de armazenamento, entre o disco rígido dos computadores e os megabaites guardados nos compactos, aceitou a tese que já perambulava aqui e ali na Internet, de que o armazenamento via disco rígido, se servido por placas auxiliares de alta qualidade, produzia uma leitura bem mais acurada dos bits armazenados; e produzirá melhor ainda se a adaptação a que, junto com o “famoso fabricante”, estão a tentar resolver os problemas mecânicos dos PCs, que ainda geram vibrações que prejudicam a leitura dos bits.
Já o bambambã da acústica cedo intuiu duas questões básicas. Primeira questão: que não existe a sala de reprodução ótima em si, e universal, seja teatro público, seja ambiente doméstico; sala e ambiente têm que ser “tratados” para a peculiar finalidade a que se destinam. Um teatro de ópera, acusticamente não se comporta ótimo em concertos orquestrais; da mesma forma, um teatro de concerto não serve com propriedade aos espetáculos operísticos. Ainda, no gênero dos pequenos conjuntos, nem o teatro de ópera nem o teatro de concerto acusticamente condizem com espetáculos de música de câmara, jazz e popular.
Segunda questão: nos teatros de ópera e concerto orquestrais o principal problema são as ressonâncias de baixa freqüência, que geram ecos inarmônicos desconfortáveis; de outra parte, o necessário grande volume dessas salas dificulta a legibilidade dos poucos e débeis instrumentos de uma orquestra, e das falas. Um exemplo desse tipo de teatro é o moderno Teatro do Centro Integrado de Cultura, de Florianópolis.
Ora, e assim seria uma terceira questão: como os ambientes domésticos são em geral de tamanho reduzido em comparação com o volume dos teatros públicos, em tais ambientes de prendas domésticas jamais se poderá ter a replicação exata de eventos produzidos em teatros de ópera e concerto. E é justamente neste ponto onde entra o engenho e a arte do bambambã da acústica, terceiro componente da empresa que se estuda estruturar; bambambã que “descobriu” o modo de compatibilizar os ambientes domésticos de escuta às condições concretas de cada musicista, em geral em reduzidos ambientes, proporcionando ao musicista do lar o prazer e a emoção da Música e não o “nonsense” do som dos muitos decibéis.
E eu concordo. Porque o que mais tenho ouvido nos muitos lugares onde tenho andado é a prática da reprodução eletrônica do som dos muitos decibéis e não da música; isto é, a sempre e compulsiva tendência da mais grande amplificação do som em conserva independente do volume do ambiente doméstico de escuta e, quase sempre, na contramão de uma dada situação concreta. A trocar, destarte, a realidade pelo desejo.
Tenho ouvido demais – ora, como tenho! – a exibição do bombástico e do grandiloquente som eletrônico... em situação de prendas domésticas; e também – valha-me meu santo padim pade ciço! – e também a peculiaridade cansativa e fatigante de tais sistemas de som bombástico, que são especializados em reproduzir detalhes e transitórios e nuanças que estão na música, é verdade, mas que não fazem a Música! Particularidades que ouvimos, e de fato ouvimos, não por serem tais detalhes essenciais à Música; da mesma forma, diga-se de passagem, como não foram essenciais aos jogos da Copa do Mundo a transmissão eletrônica em super câmaras lentas com o máximo de “zoom”, que nos exibiam em HD detalhes de canelas, pés, chuteiras, travas de chuteiras e pisadas no adversário, que se batiam e debatiam-se, e se cruzavam e descruzavam-se no perigoso balé das jogadas bruscas sem que o juiz nada pudesse apitar; porque o juiz – esse felizardo! – sem os apetrechos das super câmaras lentas e dos “closeup”, simplesmente não constatava tal balé macabro.
Enquanto o jogo, o jogo que já fora balé e hoje se há tornado uma partida de xadrez entre mestres, esse jogo desenvolvia-se nas quatro linhas por meio de jogadas de calcanhar, passes curtos e precisos, ocupação de espaços, dribles,domínio completo da bola, chutes de três dedos, folhas secas, chapéus e canetas . Óbvio, das equipes bem estruturadas e jogadas feitas por jogadores quase meninos e ainda quase anônimos; porquanto os “superstars”, esses poupavam suas pernas milionárias.
Bom juízo tem, pois, o Sílvio Santos que apetrechou seu sistema televisivo para transmitir em HD, cujo minuto é bem mais rendoso, mas para transmitir os programas dos outros... o seu, NÃO! Suas rugas de ancião octogenário são suas e não as deseja exibir a pretexto de progresso nenhum.
A atual amplificação do som em “salas espetaculares” tão ao gosto dos que não gostam de Música mas de equipamentos – os idólatras dos “high end” (que anunciam para breve realizar um Áudio Show “high-end, no Rio) –, e a moda irracional dos muitos e poderosos watts, e a vaidade dos custosos aparelhos de grife pagos em dólar, tais audiotices assemelham-se ao HD das transmissões em tevê: servem mais é para realçar defeitos e erros.
A trinca que se está a estruturar não só será apenas a antítese dessa tese audiota mas, e sobretudo, a consubstanciação da síntese de que “o bom está no singelo, e o belo, no simples.”
Meu atual sistema minimalista.
O sistema de leitura resume-se em apenas o devedê OPPO Modelo OPDV971H, que a generosidade do Vlamir Freitas, da Logical Design, obsequiou-me fraternalmente. Até sem um motivo real senão o do afeto que nos devotamos; porquanto tenho escrito quase nada sobre os produtos que ele fabrica e os que agora distribui.
Esse OPPO é dotado de controle de intensidade e equalização, de tal maneira que se pode prescindir de pré-amplificador – e a minha experiência há ensinado-me que o melhor pré-amplificador da mais cara grife não se compara com o acoplamento direto ledor para amplificador. Em geral os discos são gravados com sinal elevado desobrigando pré-amplificação.
Os amplificadores são dois monoblocos de 15 watts cada, com a soberba e mui musical válvula 300B; amplificadores que alimentam duas caixas semi-ovais nas quais, em cada, estão instalados os espetaculares “woofer” KB-6 AKRON, cujo desempenho, no dizer de seu projetista, Paulo Ramos, a “...versão Woofer em dupla e em caixa de 39 litros dutada com 27 cm x 7,5 cm deram-me uma resposta nas baixas de 27 Hz a - 4 dB em minha sala de audição. Essas medidas tirei com o meu “real timer analyser” e com gerador de áudio. Os KB-6 tem uma “compliância” máxima de 20 mm pico a pico e se prestam para graves rápidos e profundos. “
Por via do que, o “woofer KB-6 carece “tweeter” e pus o mais musical alto-falante de alta frequência que já ouvi até hoje, o “tweeter” húngaro que retirei das caixinhas ETALON ONE; uma loucura mansa que só os musicistas são capazes de sofrer... Porquanto o par das ETALON ONE custou-me, em troca eles por eles, o amplificador KARAM Model One...
Esse singelo sistema, e para usar uma palavra em voga, “minimalista”, é extremamente musical e quando me refiro musical estou a pensar em música de câmara, Bach à frente, Mozart em seguida, o resto vem atrás... se resto houver!
Por Holbein Menezes.
A “novidade” que aponta cá no Brasil é uma possível associação entre um famoso fabricante de amplificadores a válvula e dois bambambãs das áreas da leitura dos discos e da acústica de sala.
O famoso fabricante, de renome internacional, já excursionou com conhecimento e competência e sucesso em todas as direções da eletrônica da reprodução do som musical; sabe, pois, o que é engano propagandístico de marqueteiro de aluguer a tanto por página e quanto por capa. E parece ter chegado à filosófica conclusão, depois de tantos anos de experiência, de que o melhor som musical doméstico é o que é pouco amplificado, em especial pelos bojudos e artesãos fora de moda tubos termiônicos 300B, de priscas eras. Mas não é a doença da melancolia que contaminou esse Engenheiro, ou surto de saudosismo que se traduz por desengano, é constatação prática para uso pessoal e de pessoa que gosta antes de tudo de Música.
O bambambã da boa leitura dos discos, alto funcionário de um grupo televisivo, em grande parte responsável pela implantação da técnica digital nesse grupo, convenceu-se de que não residia na mídia ela em si – seja o velho bolachão LP, seja a mui boa modalidade da fita magnética, nem também na conserva compacta tão malfalada –, convenceu-se esse “alto funcionário” de que o calcanhar de Aquiles da reprodução eletrônica do som musical estava e está na mecânica e no processo de armazenamento e leitura das conservas. Ao comparar a qualidade de armazenamento, entre o disco rígido dos computadores e os megabaites guardados nos compactos, aceitou a tese que já perambulava aqui e ali na Internet, de que o armazenamento via disco rígido, se servido por placas auxiliares de alta qualidade, produzia uma leitura bem mais acurada dos bits armazenados; e produzirá melhor ainda se a adaptação a que, junto com o “famoso fabricante”, estão a tentar resolver os problemas mecânicos dos PCs, que ainda geram vibrações que prejudicam a leitura dos bits.
Já o bambambã da acústica cedo intuiu duas questões básicas. Primeira questão: que não existe a sala de reprodução ótima em si, e universal, seja teatro público, seja ambiente doméstico; sala e ambiente têm que ser “tratados” para a peculiar finalidade a que se destinam. Um teatro de ópera, acusticamente não se comporta ótimo em concertos orquestrais; da mesma forma, um teatro de concerto não serve com propriedade aos espetáculos operísticos. Ainda, no gênero dos pequenos conjuntos, nem o teatro de ópera nem o teatro de concerto acusticamente condizem com espetáculos de música de câmara, jazz e popular.
Segunda questão: nos teatros de ópera e concerto orquestrais o principal problema são as ressonâncias de baixa freqüência, que geram ecos inarmônicos desconfortáveis; de outra parte, o necessário grande volume dessas salas dificulta a legibilidade dos poucos e débeis instrumentos de uma orquestra, e das falas. Um exemplo desse tipo de teatro é o moderno Teatro do Centro Integrado de Cultura, de Florianópolis.
Ora, e assim seria uma terceira questão: como os ambientes domésticos são em geral de tamanho reduzido em comparação com o volume dos teatros públicos, em tais ambientes de prendas domésticas jamais se poderá ter a replicação exata de eventos produzidos em teatros de ópera e concerto. E é justamente neste ponto onde entra o engenho e a arte do bambambã da acústica, terceiro componente da empresa que se estuda estruturar; bambambã que “descobriu” o modo de compatibilizar os ambientes domésticos de escuta às condições concretas de cada musicista, em geral em reduzidos ambientes, proporcionando ao musicista do lar o prazer e a emoção da Música e não o “nonsense” do som dos muitos decibéis.
E eu concordo. Porque o que mais tenho ouvido nos muitos lugares onde tenho andado é a prática da reprodução eletrônica do som dos muitos decibéis e não da música; isto é, a sempre e compulsiva tendência da mais grande amplificação do som em conserva independente do volume do ambiente doméstico de escuta e, quase sempre, na contramão de uma dada situação concreta. A trocar, destarte, a realidade pelo desejo.
Tenho ouvido demais – ora, como tenho! – a exibição do bombástico e do grandiloquente som eletrônico... em situação de prendas domésticas; e também – valha-me meu santo padim pade ciço! – e também a peculiaridade cansativa e fatigante de tais sistemas de som bombástico, que são especializados em reproduzir detalhes e transitórios e nuanças que estão na música, é verdade, mas que não fazem a Música! Particularidades que ouvimos, e de fato ouvimos, não por serem tais detalhes essenciais à Música; da mesma forma, diga-se de passagem, como não foram essenciais aos jogos da Copa do Mundo a transmissão eletrônica em super câmaras lentas com o máximo de “zoom”, que nos exibiam em HD detalhes de canelas, pés, chuteiras, travas de chuteiras e pisadas no adversário, que se batiam e debatiam-se, e se cruzavam e descruzavam-se no perigoso balé das jogadas bruscas sem que o juiz nada pudesse apitar; porque o juiz – esse felizardo! – sem os apetrechos das super câmaras lentas e dos “closeup”, simplesmente não constatava tal balé macabro.
Enquanto o jogo, o jogo que já fora balé e hoje se há tornado uma partida de xadrez entre mestres, esse jogo desenvolvia-se nas quatro linhas por meio de jogadas de calcanhar, passes curtos e precisos, ocupação de espaços, dribles,domínio completo da bola, chutes de três dedos, folhas secas, chapéus e canetas . Óbvio, das equipes bem estruturadas e jogadas feitas por jogadores quase meninos e ainda quase anônimos; porquanto os “superstars”, esses poupavam suas pernas milionárias.
Bom juízo tem, pois, o Sílvio Santos que apetrechou seu sistema televisivo para transmitir em HD, cujo minuto é bem mais rendoso, mas para transmitir os programas dos outros... o seu, NÃO! Suas rugas de ancião octogenário são suas e não as deseja exibir a pretexto de progresso nenhum.
A atual amplificação do som em “salas espetaculares” tão ao gosto dos que não gostam de Música mas de equipamentos – os idólatras dos “high end” (que anunciam para breve realizar um Áudio Show “high-end, no Rio) –, e a moda irracional dos muitos e poderosos watts, e a vaidade dos custosos aparelhos de grife pagos em dólar, tais audiotices assemelham-se ao HD das transmissões em tevê: servem mais é para realçar defeitos e erros.
A trinca que se está a estruturar não só será apenas a antítese dessa tese audiota mas, e sobretudo, a consubstanciação da síntese de que “o bom está no singelo, e o belo, no simples.”
Meu atual sistema minimalista.
O sistema de leitura resume-se em apenas o devedê OPPO Modelo OPDV971H, que a generosidade do Vlamir Freitas, da Logical Design, obsequiou-me fraternalmente. Até sem um motivo real senão o do afeto que nos devotamos; porquanto tenho escrito quase nada sobre os produtos que ele fabrica e os que agora distribui.
Esse OPPO é dotado de controle de intensidade e equalização, de tal maneira que se pode prescindir de pré-amplificador – e a minha experiência há ensinado-me que o melhor pré-amplificador da mais cara grife não se compara com o acoplamento direto ledor para amplificador. Em geral os discos são gravados com sinal elevado desobrigando pré-amplificação.
Os amplificadores são dois monoblocos de 15 watts cada, com a soberba e mui musical válvula 300B; amplificadores que alimentam duas caixas semi-ovais nas quais, em cada, estão instalados os espetaculares “woofer” KB-6 AKRON, cujo desempenho, no dizer de seu projetista, Paulo Ramos, a “...versão Woofer em dupla e em caixa de 39 litros dutada com 27 cm x 7,5 cm deram-me uma resposta nas baixas de 27 Hz a - 4 dB em minha sala de audição. Essas medidas tirei com o meu “real timer analyser” e com gerador de áudio. Os KB-6 tem uma “compliância” máxima de 20 mm pico a pico e se prestam para graves rápidos e profundos. “
Por via do que, o “woofer KB-6 carece “tweeter” e pus o mais musical alto-falante de alta frequência que já ouvi até hoje, o “tweeter” húngaro que retirei das caixinhas ETALON ONE; uma loucura mansa que só os musicistas são capazes de sofrer... Porquanto o par das ETALON ONE custou-me, em troca eles por eles, o amplificador KARAM Model One...
Esse singelo sistema, e para usar uma palavra em voga, “minimalista”, é extremamente musical e quando me refiro musical estou a pensar em música de câmara, Bach à frente, Mozart em seguida, o resto vem atrás... se resto houver!
holbein menezes- utilizador dedicado

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Re: Espaço Holbein Menezes
Caro Holbein,
Já se desfez das Martin Logan?
Muito interessante esta sua crónica.
No que se refere ao armazenamento de música, permita-me que avance um passo em direcção ao futuro e substitua os discos rígidos (hard disk drive - HDD) por memória sólida (solid-state drive - SSD) eliminando assim uma das fontes de vibração (e imprecisão) do seu PC.
Quanto à questão da sala de reprodução doméstica, o assunto da replicação da acústica do espaço onde teve lugar a actuação musical pode ser abordado de duas formas:
1 - os instrumentos são gravados a grande proximidade, eliminando desse modo o som reflectido que contém
a informação espacial e a sala de reprodução doméstica mimetiza as características acústicas do espaço
onde teve lugar a actuação musical
2 - os instrumentos são gravados do ponto de vista da audiência, contendo o registo toda a informação referente
à ambiência o espaço onde teve lugar a actuação musical, e a sala de reprodução doméstica é o mais neutra
possível para evitar o empolamento ou atenuação de partes específicas do espectro
Na minha opinião, apenas a segunda opção é válida, já que a gravação de proximidade altera o timbre dos instrumentos e isso implicaria também que tivéssemos uma sala de diferentes características para cada estilo (concerto, ópera, recital, igreja, etc.).
O problema é que existem no mercado muitas gravações de música acústica (erudita e jazz) efectuadas a grande proximidade e essas nunca darão a ilusão de estarmos na presença de verdadeira música...excepto talvez recorrendo à manipulação digital do sinal (DSP) mas essa tecnologia ainda está longe de ser "alta fidelidade".
Um abraço,
Ricardo
Já se desfez das Martin Logan?
Muito interessante esta sua crónica.
No que se refere ao armazenamento de música, permita-me que avance um passo em direcção ao futuro e substitua os discos rígidos (hard disk drive - HDD) por memória sólida (solid-state drive - SSD) eliminando assim uma das fontes de vibração (e imprecisão) do seu PC.
Quanto à questão da sala de reprodução doméstica, o assunto da replicação da acústica do espaço onde teve lugar a actuação musical pode ser abordado de duas formas:
1 - os instrumentos são gravados a grande proximidade, eliminando desse modo o som reflectido que contém
a informação espacial e a sala de reprodução doméstica mimetiza as características acústicas do espaço
onde teve lugar a actuação musical
2 - os instrumentos são gravados do ponto de vista da audiência, contendo o registo toda a informação referente
à ambiência o espaço onde teve lugar a actuação musical, e a sala de reprodução doméstica é o mais neutra
possível para evitar o empolamento ou atenuação de partes específicas do espectro
Na minha opinião, apenas a segunda opção é válida, já que a gravação de proximidade altera o timbre dos instrumentos e isso implicaria também que tivéssemos uma sala de diferentes características para cada estilo (concerto, ópera, recital, igreja, etc.).
O problema é que existem no mercado muitas gravações de música acústica (erudita e jazz) efectuadas a grande proximidade e essas nunca darão a ilusão de estarmos na presença de verdadeira música...excepto talvez recorrendo à manipulação digital do sinal (DSP) mas essa tecnologia ainda está longe de ser "alta fidelidade".
Um abraço,
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Palso sonoro ou a grande ilusão.
Por Holbein Menezes.
Fala-se demais em palco sonoro, e fala-se como se fora coisa pronta e acabada, definida e definitiva, e estática, e concreta, e perceptível. Refere-se a ele às vezes como objeto e por vezes como objetivo. Porém sempre se afirmando que está ali à sua frente. Ou devia estar. Se você não o percebe, então, coitado de você! seu sistema eletrônico para a reprodução do som musical não está “equilibrado”... Quantas vezes já não li testes de equipamentos eletrônicos com essa conclusão!
A meu ver, tal “diagnóstico” sumário sacado contra sistemas eletrônicos para a reprodução do som musical é pura enganação, misturada com alguma dose de perversidade (talvez objetivo não manifestado do “resenheiro”, que assim pontifica para vender a você outro produto...) Cuidado, portanto!
Porque, meus leitores, os frequentadores costumeiros de concertos e recitais e shows ao vivo sabem que o evento original não possui palco sonoro. Ou, pelo menos, não possui só um tipo depalco sonoro. Vejam: nos shows ao relento, por ausência de reverberação no ambiente, a música vem de um ponto indefinido, inda que identificável. Mas os espectadores só “identificam” que o som vem da frente por estarem na parte frontal do palanque, com os olhos voltados para o tablado do show. Identificam porque estão a ver o espetáculo. Basta, porém, fecharem os olhos ou virarem-se para trás, e o ponto do palco torna-se indeterminado. A simples ausência da imagem, na retina, leva-a para a zona cortical da imaginação ou da memória, e não a da audição. Em outras palavras: de música “ao vivo”, evento concreto, passa à categoria de percepção subjetiva. E, como em toda percepção subjetiva, o palco passa também a ser subjetivo. Deixa de existir de fato e passa a existir como lembrança.
Aliás, isso acontece com qualquer fonte de som. Se você estiver vendo a fonte do zumbido, você sabe de onde o zumbido provém, mas se ouve o zumbido de dentro de sua casa, só saberá de onde o zumbido procede se conhecer de antemão a fonte dele. É o que ocorre, por exemplo, com trovões. Se vemos o relâmpago num ponto qualquer do céu, com certeza identificaremos segundos mais tarde o lado de onde vem o decorrente zumbido do trovão. Mas se o escutamos de dentro de casa ou do escritório, essa identificação torna-se problemática: pode lhe parecer que vem de um lado ou de outro, tudo vai depender das reflexões envolvidas.
Nos concertos e recitais em teatros, quer dizer, em recintos fechados com reverberação controlada (segundo o Dr. Amar Bose, 89% refletida e somente 11% direta), a noção do palco vai depender do ponto onde estivermos postados. Na “torrinha” dos teatros de ópera (teatro de ópera não é uma casa de espetáculos só para ópera; assim se designa qualquer teatro de grande porte com capacidade para exibir também óperas), na “torrinha”, por exemplo, ouve-se o som da música como se vê o espetáculo, de ponta-cabeça, ou seja, de cima para baixo. Nessas condições, ouve-se um som sem perspectiva ou de estreita e enviesada perspectiva, como se estivéssemos assistindo ao espetáculo pelo lado de fora do recinto, através de uma janela... (Sei do que estou a falar, tive experiências a mancheias, é muito esquisito.)
Mas nos teatros de ópera há também o som dos camarotes, que é aconchegante porque em geral amaciado por cortinas e guarnições de veludo, e pobre em perspectiva; das frisas, muito próximo do som dos camarotes, mas de melhor perspectiva porquanto ficam quase ao nível da platéia; do balcão nobre, que recebe todo o brilho dos médios uma vez que está situado de frente para o palco e na bissetriz do ângulo vertical formado pelo piso e teto do teatro; da platéia, que é suave, perspectivo, longínquo, mas algo soturno. Há também o som do maestro (que Deus o proteja!), impactante, nas fuças, por vezes mais de 100 decibéis explodidos dentro dos tímpanos do pobre coitado... E, por fim, há o som de cada músico, que ouve seu instrumento em desproporção com o som do instrumento do colega vizinho, por isso que escuta o dele bem perto dos ouvidos e no viés das preocupações com o andamento indicado pelo regente – um olho no cravo e outro na ferradura, ou, propriamente, uma espiada de esguelha no maestro e atenção nos símbolos da partitura em sua frente (parte da partitura).
Palco sonoro como coisa concreta, definida, estável, estanque, compartimentada, o som de cada músico e cada músico no seu lugar, a voz de cada instrumento e cada voz vinda de um dado ponto, bem, essa coisa arrumadinha não existe em música, nem ao vivo nem na reprodução em conserva. Na reprodução em conserva, porque na maioria das vezes as gravações são “trabalhadas” pelos produtores. Música gravada hoje, vozes postadas noutro dia. E ainda: na hora da gravação da música os naipes são divididos e, não raro, compartimentados: contrabaixo (no caso de jazz) dentro de um cubículo fechado, metais isolados das cordas por painéis isolantes, solistas com microfones exclusivos. E mais o poder do senhor Engenheiro de som encarregado da mesa, com seus nervosos dedos e uma porção de botões (resistores variáveis) à disposição... E, sabemos, por via de tais botões o som de um instrumento pode parecer mais longe ou mais perto, ao gosto do senhor engenheiro de som.
E não falo da localização dos microfones e seus múltiplos canais. Ao gosto dos técnicos de áudio e ao capricho do técnico da mesa; um som da esquerda pode ser trocado e ouvido na direita, no centro, na frente, atrás, onde os técnicos quiserem, até mesmo na esquerda onde se originou. Pode ser ouvido forte ou fraco, nítido e articulado ou sutil e indistinto.
Onde então palco sonoro definido e definitivo nas gravações que escutamos?
É verdade que há os discos audiófilos... (Desculpem meu perfeccionismo lingüístico, mas não entendo porque “audiófilo” para designar um tipo de gravação. Audiófilo é uma palavra composta de áudio, do latim audïre = ouvir, mais filo, do grego phÿlon = tribo, raça. O termo audiófilo designa ou devia designar a “tribo/raça dos ouvintes” ou uma pessoa dessa tribo. Mas um disco? Que me conste um disco não é ouvinte nempertence a “tribo” nenhuma.)
É verdade também que a grande maioria dos discos não é audiófilo, estes são apenas uma meia dúzia, feitos por diletantes, produzidos por abnegados, pequenas empresas artesanais a comercializar pequeníssimas quantidades, que não chegam a contar no mar (milhões) dos discos fabricados por companhias multinacionais via máquinas automáticas, e engenheiros de som transformados em manipuladores de espectros de bandas.
Para a exceção do chamado disco audiófilo até que pode fazer sentido falar em palco sonoro porque aqui há um arranjo físico na hora da gravação, o leiaute é predeterminado para lograr um dado efeito e tais efeitos sonoros podem e devem ser passados de igual maneira, ou próximo dela, na reprodução. Mas é a exceção, não é a regra geral, e se não é a regra geral não pode servir de parâmetro para medir coisa alguma. Entenderam agora minha bronca contra palco sonoro e o comparsa dele, o tal “sistema equilibrado ou não equilibrado”?
Sem falar na influência - valha-me meu santo Padim Pade Ciço! -, sem falar na influência da crítica instalação do sistema de som na sala de reprodução. A tirar pelo esquema divulgado pelo George Cardas, que se baseou em normas técnicas estabelecidas (?) pela AES (Sociedade dos Engenheiros de Áudio), dos Estados Unidos, para haver boa imagem (o tal palco sonoro) a sala de audição tem que ter as medidas do segmento áureo, ou andar perto disso. E tem que está disposta (arranjada) nos termos da equação Phi, formada pelos fatores .6180339887... para 1 ou 1 para 1.6180339887... multiplicados pela altura. Entenderam? Nem eu.
holbein menezes- utilizador dedicado

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Re: Espaço Holbein Menezes
Muito bom caro Holbein


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Paulo André
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Re: Espaço Holbein Menezes
Mais um bom artigo para degustar. Mas eu faria um reparo: o -filo não vem de phylon (φυλή/φῦλον) mas sim de philia (φιλíα), que é um sufixo que encaixa melhor no sentido pretendido (afecto, apreço, neste caso, pelo audio).
P.S.: E, já agora, fica aqui um texto meu que se enquadra mais ou menos no mesmo espírito: http://www.interdisciplina.org/writings/electrao.pdf
P.S.: E, já agora, fica aqui um texto meu que se enquadra mais ou menos no mesmo espírito: http://www.interdisciplina.org/writings/electrao.pdf
Última edição por paulo_m em 17/7/2010, 16:39, editado 1 vez(es)

paulo_m- utilizador dedicado

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Re: Espaço Holbein Menezes
Obrigado por partilhar estes belos textos. 

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Re: Espaço Holbein Menezes

Muito bom
Qualquer semelhança
é mera conincidência.

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Esclarecedor!
Como sempre: esclarecedor e contra os paradigmas atuais do "audiomarketing".
O que vale mesmo é a música, pura e simples.
O que vale mesmo é a música, pura e simples.
Davi Vitalino- utilizador iniciado
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Re: Espaço Holbein Menezes
Davi Vitalino escreveu:Como sempre: esclarecedor e contra os paradigmas atuais do "audiomarketing".
O que vale mesmo é a música, pura e simples.
É mesmo caro Davi
Aproveito para o convidar a fazer a apresentação no lugar próprio e juntar-se a nós, neste espaço de partilha e de paixão.
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Orion- Equipa Audiopt - Admin.

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Re: Espaço Holbein Menezes
holbein menezes escreveu:
Palco sonoro ou a grande ilusão.
Por Holbein Menezes.
Caro Holbein,
Não posso deixar de manifestar alguma inveja por este seu brilhante artigo, não pela originalidade do tema já que o costumo abordar com frequência mas pela elegância e clareza da sua prosa, perfeitamente ilustrada com imagens palpáveis da sua larga convivência com a música ao vivo e a visão crítica de quem tem muitos anos de amador* da reprodução doméstica.
Infelizmente, este tipo de olhar crítico à audiofilia e às armadilhas da indústria nem sempre é bem recebido.
Como escreve o Kiyoaki Imai (Audio Tekne) no seu site, "com o desenvolvimento do Stereo as pessoas deixaram de escutar música ao vivo (real) e hoje em dia preferem ouvir som reproduzido (artificial), e foram essas mesmas pessoas (sem conhecimento do som ao vivo) que se tornaram nos críticos da qualidade de reprodução dos sistemas de audio".
Actualmente a moda gira em torno de um efeito especial denominado "palco" e este interesse de críticos e audiófilos pelo som visual™ tem desviado os objectivos dos mesmos e até da própria indústria de aquilo que interessa: a reprodução da música.
Nem todos queremos ou temos de praticar o Audio de uma forma séria e "pesada", o que não devemos, na minha opinião, é deixar que o nosso sistema e a forma como o escutamos se interponha entre nós e a música: isso seria o desvirtuar da raison d'être da música enlatada.
Segue-se a leitura do artigo do Paulo M.
Até breve,
Ricardo
* - individuo que pratica uma arte, desporto, ou ofício por gosto e com seriedade.
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