Ricardo Labuto Gondim, www.logoseletronico.com

Ir em baixo

Ricardo Labuto Gondim, www.logoseletronico.com Empty Ricardo Labuto Gondim, www.logoseletronico.com

Mensagem  holbein menezes em 16/1/2011, 10:09

Aforismos, Desaforos e Dois Anúncios Classificados

--------------------------------------------------------------------------------
Ricardo Labuto Gondim

Ontem tive uma noite daquelas. Voltei para casa dizendo que “foi tudo um grande erro” e acordei repetindo que “nunca mais beberei”. Tudo começou com uma pacata e virtuosa água tônica, corrompida noventa minutos mais tarde por uma bebida de cor azulada. Uma exótica aventura etílica que alguém aprendeu a fazer num vilarejo úmido, trinta milhas ao norte de Trichinópoli. Pelo que me lembro, a mistura envolvia quase tudo que o barman tinha na prateleira e alguns derivados de petróleo. Suponho ter ouvido um gato miando desesperadamente, mas não tenho certeza. Durante os trabalhos houve um princípio de incêndio logo controlado. Como infelizmente a coqueteleira foi salva, estou aqui “fechando a conta”, pondo o cargo à disposição do Criador.

Mesmo com alguns neurônios irremediavelmente perdidos, tenho o compromisso de entregar um artigo inédito ao site Audiodicas. Assim, contra minha própria vontade, sou obrigado a dividir meu mal-humor com você. Minha assistente, Miss Eleanor Ariadne Pibble irá digitá-lo, pois estou vendo todas as teclas ddoobbrraaddaass. Se algo sair errado, a culpa é dela.

A crítica inglesa é a mais influente do mundo: disseram que Colin Davis e Simon Rattle eram regentes – e até os alemães acreditaram.

Ouvi o causo numa das agradáveis mesas do Petisco da Vila, meu ponto de encontro aos domingos. A história foi contada pelo protagonista. O camarada terminou o affair com uma dama que – segundo ele – mentia patologicamente. Dias depois, recebeu da inconsolável mitômana o convite para assistir ao Fantasma da Ópera em São Paulo com todas as despesas pagas. A resposta teria sido mais ou menos assim (leia em voz alta para obter melhor efeito): “Queria deixar bem claro que o que me dá vontade de vomitar não é o fato da senhora me confundir com algum gigolô que costuma freqüentar. É a suposição de que eu estaria disposto a ouvir o Fantasma da Ópera”. Nas palavras do sedutor, Andrew Lloyd Webber é o túmulo da música no ocidente. Como nunca mais beberei até o próximo domingo, não me atrevo a repetir as palavras com que endossei a assertiva. Você vai ter que se contentar com as dele.

Às vezes me vejo pensando que não podemos perdoar aos ingleses a invenção de Lloyd Webber, Colin Davis e Rattle. Então me lembro de que eles também inventaram Shakespeare...

Borges escreveu que organizar a estante de livros é também um modesto exercício de crítica. Aplicando o mesmo princípio à minha discoteca, julguei prudente omitir qualquer vestígio de Rattle. Vai que você me visita?

Não pude omitir Davis por sua parceria com a orquestra mais equilibrada do mundo, a Concertgebown de Amsterdã.

Se o DVD de Leopold Stokovsky pela EMI tem como irreparável defeito o próprio Stokovsky, tem também Pierre Monteux como bônus, o que justifica o investimento. Monteux rege O Aprendiz de Feiticeiro com a insofismável meticulosidade e precisão de quem estreou a Sagração da Primavera. Menino, você precisa ver isso. Rattle, eu lhe asseguro, nunca viu.

O repórter para Toscanini: “Que imagem o senhor tem diante de si quando rege a Eroica?” Toscanini, ignorando as possibilidades retóricas e marqueteiras da pergunta: “Allegro con brio”.

O repórter para Otto Klemperer: “Por que o senhor só rege com partitura?” “Porque eu sei ler música”.

O crítico Omar Castellan, da revista Áudio & Vídeo, definiu a Filarmônica de Viena numa frase memorável: “a mais sensual das orquestras”. O jeito inesperado como ela reage a cada batuta não deixa mesmo dúvidas: é a fêmea da espécie.

Um site como o Audiodicas é melhor do que qualquer site de mulher pelada. Aliás, por incrível que pareça, o que se mostra aqui é, em geral, muito mais barato de se manter.

Uma garota bonita pediu a Brahms que autografasse sua sombrinha. Ele escreveu os dois primeiros compassos do Danúbio Azul e acrescentou: “Infelizmente não é minha”.

Uma garota não tão bonita perguntou a Schubert: “Por que você só compõe música triste?” E o pobre Franz respondeu: “E por acaso existe outra?”.

Um crítico elegante poderia dizer que, apesar do som extraordinariamente cristalino e belo que extrai do piano, Alfred Brendel é um músico desprovido de imaginação. Eu, que sou desprovido de elegância, acho Brendel um chato.

A crítica mais fulminante que já li foi a do insuperável mestre Mário Henrique Simonsen, que chamou Ivo Pogorelich de “o pianista mais bonito do mundo”.

Não fique chateado comigo se você gosta de Davis, Rattle, Stokovsky (que o Prof. Simonsen chamava de “maestro de Hollywood”) e Brendel. Digo isso porque amo Schnabel, Solomon, Curzon, Anda, Mengelberg, Weingartner, Mitropoulos, Toscanini, Barbirolli, Ansermet, Monteux e muitos outros intérpretes que a maioria das pessoas não conhece porque só existem em gravações comprometidas pelo tempo. A Quarta de Mahler com Mengelberg, por exemplo, é insuperável – mas tem som de 1940.

Quem assistiu à série “The Music of Man” de Yehudi Menuhin (no Brasil, A Magia da Música), deve lembrar-se da ira do célebre violinista profissional e regente amador contra Glenn Gould. O episódio mostra Gould “regendo” o engenheiro de gravação durante a seção de mixagem dos cinco ou seis microfones que usou para gravar o piano. O que Menuhin chamou de “falsificação” eu chamo de “integridade”. Gould entendeu que uma gravação é uma gravação. Em sua busca obsessiva pela clareza, abdicou de tudo. Até mesmo do realismo (e às vezes, da beleza de som).

Falando em gravações, alguns engenheiros conseguem fazer com que o Steinway se pareça com um piano. Pelo sim, pelo não, Gulda não arriscou e ficou com o Börsendorfer.

É incrível como as fofocas correm. Volta e meia um crítico escreve sobre a discussão pública entre Glenn Gould e Bernstein antes da execução do Concerto n. 1 de Brahms em 6 de abril de 1962. É mentira, não houve discussão alguma. Bernstein expôs seu assombro diante da interpretação do pianista ao mesmo tempo em que lhe fez um elogio retórico – ainda assim, deselegante. Depois, Gould entrou sem dizer nada, sentou ao piano e juntos fizeram uma interpretação de beleza inquietante. Moral da história: poucas vezes no mundo da música um artista aceitou a oposição do outro com a nobreza fidalga – silenciosa e ao mesmo tempo eloqüente – de Glenn Gould naquela noite imperecível.

Ironicamente, a última gravação da vida de Glenn Gould foi sua estréia como regente. Ele dirigiu “O Idílio de Siegfried” na versão original que Cosima ouviu em seu aniversário (Wagner não pôs uma orquestra debaixo da janela dela, mas apenas 13 músicos). Isso diz muito sobre uma obra geralmente subestimada. Disponível em CD , a gravação de Gould diz muito mais.

Existem dois tipos de fagote: o francês, que tem som de violoncelo, e o alemão, que tem som de fagote. Eu não sei o que isso significa, mas deve significar alguma coisa.

Posso sugerir a gravação de uma música sublime e subestimada? Ok, mas vou sugerir assim mesmo. Experimente a Sinfonia n° 2 de Rachmaninov. Na versão de André Previn (Great Recordings of the Century, EMI Classics), o raríssimo e oportuno encontro da melomania com a audiofilia. Uma performance estupenda com som seco, preciso e claro. Na versão da Royal Philharmonic – que custa dez reais na padaria da esquina – outra experiência maravilhosa.

Ouvi a última versão da Primeira Sinfonia de Brahms com Celibidache, que é um concerto para tuberculose e orquestra. Cheguei à seguinte conclusão: no dia em que os engenheiros de som gravarem as orquestras com a mesma qualidade com que gravam as tosses, a audiofilia estará concluída.

Há muitos anos li no Jornal do Brasil a entrevista de um engenheiro de gravação, aposentado, que havia trabalhado com os gigantes da regência. Ele confessou que nunca entendeu o que os maestros – especialmente Karajan – queriam dizer quando lhe pediam um “som 3D”. “Só conheço dois tipos de som: o alto e o baixo. O resto eu nunca escutei”. Pessoalmente, acho que acústica e engenharia de gravação são ciências tão refinadas e complexas, que sobre muitos dos êxitos que conhecemos pairam as obras do acaso e da Providência.

No Requiem de Verdi regido por Toscanini, no Tuba Mirum você pode ouvir o maestro gritando “Piu forte! Piu forte!”. Durante o broadcast, o coro atendeu o comando do maestro de modo tão eficaz que foi preciso usar o registro do ensaio – que um técnico prudente teve o cuidado de gravar.

Toscanini pediu a um soprano famoso pelo dó de peito – e pelos próprios peitos – para cantar uma dada frase assim, assim. Lá pela quarta tentativa a mulher ensaiou um protesto. O maestro desceu do pódio e apertou seus “atributos”: “Ah, madame, se isso fosse cérebro!”.

Ainda Toscanini: uma diva agiu como diva durante todo o ensaio. Ao contrário do que se esperava, Toscanini não explodiu – foi até suave: “Senhora, queria dizer-lhe que as estrelas estão no céu. Aqui em baixo só existem bons e maus músicos, e a senhora pertence ao grupo dos maus”.

Puccini e Toscanini brigaram. O compositor tinha por tradição enviar panetones aos amigos no natal. Esquecendo-se da briga, a secretária mandou o acepipe para Toscanini. Quando soube, Puccini enviou um telegrama: “Panetone enviado por engano”. Toscanini respondeu: “Panetone comido por engano”. Anos mais tarde o maestro regeu a estréia de Turandot. No ponto em que o manuscrito autógrafo passava da caligrafia de Puccini para a de Alfano – que completou a obra – Toscanini calou a orquestra e voltou-se para o público do Scala de Milão: “Aqui o maestro morreu”. O público entendeu, saiu em respeitoso silêncio e voltou no dia seguinte para ouvir a conclusão da ópera.

Toscanini definia a si mesmo como um “contandino”, um camponês. Definitivamente ele não era um intelectual como Furtwängler, que vivia cercado de literatos e filósofos, ou uma personagem do jet set como Herr Karajan. Mas foi um grande homem, e na minha modestíssima opinião, o maior dos regentes. Sempre repito isso aos espíritos penetrantes que se julgam superiores porque ouvem a música que teimam em chamar de “erudita” – coisa que, aliás, não existe. Haydn, que consolidou a forma sinfônica e foi o mestre de Beethoven, era um homem ainda mais simples que Toscanini.

Numa noite dessas ouvi o prelúdio do III ato do Lohengrin com Mravinsky e São Petersburgo. Ai, Senhor, porque eles não gravaram o Anel?

Quando ouço a Filarmônica de Berlim hoje, depois de Abbado e Rattle, descubro que Hebert von Karajan era muito maior do que pensávamos.

Karajan foi gravar o Don Quixote de Strauss com Rostropovich. Quando o violoncelo entrou, um som horrível. “Slava – perguntou Karajan – sente-se bem?” Rostropovich sorriu: “Sim, mas veja: é um cavalo muito velho o que estou montando”.

Férenc Fricsay foi um dos maiores regentes de todos os tempos, mas poucos audiófilos o conhecem. A sonoridade das suas gravações pertence ao mundo dos melômanos. Já Vaclav Neumann nos deixou excelentes gravações – e você não tem desculpa se o desconhece.

Numa tarde de verão irrepreensível em Varsóvia, o Prof. Dr. Hermann von C. Phudör, PHD, meu orientador na Universidade de Breslau (onde pesquisei as virtudes teologais do número quatro – número da perfeição de todo tetrágono), me saiu com a seguinte pérola: “—São cinco as coisas que não existem: ex-anão, ex-corno, ex-veado, filho de prostituta chamado Júnior e reviewer de revista de áudio que não seja tratado como Herbert von Karajan, amado por metade da crítica e odiado pela outra metade”. “—Ossos do ofício”, retruquei. Reagindo com um gesto ao primarismo do meu comentário, o Dr. von C. Phudör completou: “Veja, por exemplo o Fulano da revista X, que escreve as coisas exatamente do jeito que eu penso. É um sujeito excelente, que não amiúde é tratado injustamente. Já aquele outro, o Sicrano, que só diz bobagens com que absolutamente não poso concordar, vive às expensas da mãe, cuja profissão adivinho sem esforço”. E suspirou: “—Quer saber? Ninguém entende de áudio. Só eu”.

Como a mim não foram dadas orelhas invulgares do Dr. von C. Phudör, posso ser perdoado ao dizer que alguns dos CDs da Telarc – venerados por muitos audiófilos – me soam como se tivessem sido gravados nos banheiros mais amplos do mundo.

Anúncio nos classificado de um jornal popular: “vende-se tapete de nylon e lã. Faça a alegria da patroa. Enfeite sua casa com um tapete mais fácil de lavar. Tratar com Ricardo: (21)9439-6250”.

O mesmo tapete num site ou revista de áudio: “vendo tapete audiófilo. Pêlos em liga especial de nylon de última geração em paralelo com fios de lã de bois almiscarados tosquiados na primavera. Permite a absorção linear dos graves e a dispersão uniforme dos agudos. Padronagem neutra. Fácil manutenção. Gondim (21)9439-6250”.

Depois de gravar seu ciclo de Beethoven na década de 1970, Karajan foi descansar nos Alpes. Ouvindo as prensagens de teste do material mixado, telefonou para a DG: “—Sinto muito, senhores, mas teremos de refazer tudo desde o princípio”. Os engenheiros e a direção da DG entraram em pânico, aquilo ia custar uma fortuna. Quando o maestro voltou de férias, levaram-no ao estúdio e imploraram para que ouvisse outra vez – e ele achou perfeito. Karajan decifrou o mistério: a altitude dos Alpes havia alterado sua pulsação. Segundo ele, os tempos da música têm relação direta com o ritmo cardíaco do regente. A Fundação Karajan pôs-se a estudar cientificamente o fenômeno sob o escárnio da imprensa, que chamou a pesquisa de “diletantismo”. Muito inadvertidamente, os resultados explicaram porque três maestros morreram regendo Tristão e Isolda, dois deles praticamente no mesmo compasso.

Muitos anos antes, Toscanini intuitivamente havia compreendido a questão, acelerando seus tempi na medida em que envelhecia. Por isso, ao contrário dos outros regentes, as gravações mais antigas de Toscanini são consideravelmente mais lentas do que as últimas. E também por isso é preciso avaliar com muito cuidado as teses de Celibidache.

Existe um mito sobre o tempo da música com Celibidache, mito que o próprio maestro ajudou a propalar. Jovem, Celibidache foi um homem invulgarmente bonito, oriental de bronzeado mediterrâneo, emplumado no pódio por uma indisfarçável hipertrofia do eu. Francamente, tinha mais aparência do que valor. Mas o talento estava lá: por volta dos quarenta anos revelou-se um regente muito maior do que prometia sua frívola juventude – uma espécie de Henrique V da música. Em idade avançada, sua perspectiva da noção de tempo mudou – mais por defeito da velhice do que por virtude de sua filosofia zen-budista da regência. Seus tempi dilatados – que vão muito bem em Bruckner, mas que podem ser constrangedores em Brahms e Beethoven – tendem ao extraordinário. Qualquer trechinho de transição numa música qualquer soa enorme, grandioso, monolítico... Aqui, meu caro, há sabedoria: não existe material mais humano do que o material de trabalho do regente. Ele é a voz de Deus e daquela Humanidade profunda que lateja em cada um de nós. Mas na medida em que ele mesmo tende à Eternidade, tende também à monumentalidade. Penso que isso acontece porque no maestro – e também em cada um de nós – existe uma centelha do Sagrado... que em certa fase da vida sente a nostalgia do infinito.

Viu? O mal-humor passou. Que Deus nos abençoe – e nos permita muitas audições.

holbein menezes
utilizador dedicado
utilizador dedicado

Número de Mensagens : 420
Data de inscrição : 09/06/2008
Pontos/Reputação : 435

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ricardo Labuto Gondim, www.logoseletronico.com Empty Elogio do Diletantismo.

Mensagem  holbein menezes em 26/1/2011, 10:22

Enologia do Diletantismo
Ricardo Labuto Gondim
gondim@logoseletronico.com

Tenho incontáveis razões para percorrer avidamente as páginas da edição brasileira da Diapason. Uma só bastaria: o vasto nome de Lauro Machado Coelho. Em minha adolescência, nos tempos imperecíveis da revista SomTrês, guiado pelas mãos de Lauro e J. J. de Morais atravessei “ousado e sem medo” a ponte do arco-íris que leva ao mundo dos clássicos. Hoje resta a saudade, a gratidão e a Diapason, que não me atrai apenas por suas virtudes, mas também por uma característica peculiar e essencial.

A edição nº 4 (setembro/outubro de 2006) traz um trabalho excepcional do Prof. Rodolfo Coelho de Souza, da USP de Ribeirão Preto que abre com distinção o “Dossiê Beethoven”. Lastreado pela erudição e por um estilo magnético, o autor promove uma lúcida imersão da mitologia beethoveniana num contexto histórico, geográfico e social discernível e concreto. Dessa dimensão espaço-temporal emerge um compositor purificado dos anacronismos que embaçam sua biografia há 200 anos. A pesquisa da Prof.a. Alessandra Comini, das universidades Columbia e Metodista de Dallas também é outra jóia fulgurante de brilho, e traça o perfil de Beethoven a partir de imagens que o tempo preservou e coloriu.

Ao mesmo tempo em que oferece profundidade e inteligência, a Diapason também permite prazeres mais amenos. Existe um estilo antiquado de se fazer crítica (anterior a Schumann, que era um mau escritor) que os europeus insistem em preservar, não sei se por tradição, gosto ou pedantismo. Refiro-me àquele rebuscamento requintado, que se por um lado ornamenta a grandeza inatingível de um Balzac, exige - para ser grandioso e requintado - um Balzac. Falo de críticas que tratam gravações como se fossem perfumes ou vinhos. Onde os limites teóricos do autor evaporam prematuramente, fazendo a discussão transbordar da música para a insubstância.

Esse modelo empoeirado prevalece entre alguns críticos da edição francesa. Uns incorporam o estilo com brilho e sabedoria; outros estão ébrios de um vazio diletante; mas ambos competem para edificar o sabor característico que torna a leitura da Diapason uma degustação inteligente e agradável.

Na laureada edição nº 4, por exemplo, um crítico lamenta que o allegro non troppo da Segunda de Brahms com Michael Gielen seja um “estudo sonoro severamente controlado, mais do que deambulação poética”. Outro, a respeito de um CD de Felicity Lott escreve que “ela não apóia [os compositores] Hahn, Roussel ou Grand com piscadelas que os diminuiriam”. E completa: “seus Strauss são arrogantes”.

Gosto muito de vinhos, e se beber demais posso passar uma noite inteira procurando deambulações poéticas nos lugares mais inesperados. Se tivesse lido na Vinho Magazine que um honesto Valpolicella tem “piscadelas frutadas” não me espantaria. E afirmo com vigorosa ênfase: o shiraz australiano dos meus sonhos é excepcionalmente “arrogante”, pois além de encorpado - mas mui ligeiramente amadeirado - custa mais do que posso pagar e traz muito menos do que eu queria beber. Mas daí a ler que uma cantora não apóia Fulano e Sicrano “com piscadelas que os diminuiriam” é assombroso. Ainda que a notícia tenha agradado ao marido da respeitável senhora, certamente não trouxe surpresas: até onde sabemos a reputação da dama não estava em jogo.
Numa breve entrevista com a nova esperança da indústria do disco, o regente francês Marc Minkowski, o tema básico foi sua desconcertante interpretação das Sinfonias 40 e 41 de Mozart. O entrevistador, um cavalheiro chamado Gaëtan Naulleau cometeu uma das maiores pérolas que já li num artigo sobre música. A respeito do finale da 41, Minkowski explica que no movimento vê “um quadro de Bosch. Superposições de imagens inquietantes, pouco agradáveis, mas curiosamente evidentes”, e demonstra como persegue a materialização dessa idéia regulando o andamento. É quando Monsieur Naulleau se deixa “arrebatar” pela visão:
- O finale da Júpiter como um jardim de suplícios? E eu que pensava numa apoteose dionisíaca! Pobre Mozart. Esmerou-se para encerrar a Júpiter com uma das maiores fugas que um sinfonista já concebeu, sem imaginar que séculos depois a obra alimentaria o fogo fátuo de uma discussão pictórica.

O texto, é claro, me divertiu. Eu estava sob o impacto do douto artigo do Prof. Rodolfo Coelho de Souza, e essa brusca mudança de tom e andamento cristalizou o conceito de algo que também me seduz na Diapason: sua amplitude. A abertura para concepções diferentes dos ilimitados efeitos que a música é capaz de provocar no ouvinte. Essa amplitude é o que garante a abrangência e a permanência da música ao longo da história – e o prazer de ler a revista.

Brincadeiras à parte, na partida travada entre Monsieur Naulleau e seu entrevistado – pois toda entrevista é um jogo de espelhos chamado “Aparência e Realidade” – quem ganhou fui eu, pois comprei o CD.

Sob o título “Furtwängler barroco?”, a introdução traz o impacto sedutor de uma tese: as interpretações de Minkowski com instrumentos antigos têm “uma surpreendente e indisfarçável liberdade romântica”.
Será?

Os regentes de orquestras com instrumentos originais costumam – de modo geral – abdicar da interpretação em detrimento da revelação de caracteres estruturais e sonoros que estão essencialmente entrelaçados. Se a idéia é reproduzir o que se supõe que seria a execução da música num dado momento histórico, a interpretação poderia comprometer irreparavelmente a ansiada autenticidade. Foi justamente a negação radical da interpretação - o que é humanamente impossível, pois negar a interpretação é interpretar - que revelou a estatura de regentes radicais como Franz Brüggen.
De Beethoven para trás existem muitas versões diferentes de uma ampla faixa do repertório. Ora, não é preciso ser gênio para entender que se a forma e a sonoridade da música já foram exploradas, o próximo passo é a interpretação em seu caráter decisivo. Mas ao invés de experimentar o que se pode fazer neste terreno sob a vigilância exclusiva do metrônomo e dos tratados e documentos que legitimam a prática de época, Marc Minkowski assumiu publicamente o “instinto” como primeiro critério da sua abordagem.

Minkowski não foi o primeiro a dar o salto. Outros regentes puseram eventualmente o fundamentalismo de lado e se arriscaram nesta senda, como Goebbels e o polêmico Harnoncourt, que dividiu o mundo heterogêneo da crítica com suas estranhas versões das sinfonias de Mozart. Mas nenhum deles se arriscou tanto, pois a perspectiva de Minkowski é audaciosamente anacrônica: ele se impõe como um regente do século XXI interpretando uma orquestra com recursos e sonoridades do passado – sobre a qual aplicou racionalmente as conquistas dos séculos posteriores, tanto em relação à prática, disposição e número de instrumentos, quanto na manipulação inteligente das tecnologias de gravação. Assim, tornou-se um caso único.

Portanto, a “surpreendente e indisfarçável liberdade romântica” de que fala o texto da Diapasoné de fato surpreendente, indisfarçável, “romântica” e - ao menos no ambiente mozartiano - legitimada pela história: em sua vasta correspondência Mozart nunca omitiu a profunda alegria que experimentava ao ouvir sua música executada por um contingente acima dos padrões da época. E sabia - de modo muitas vezes velado, mas sempre eficaz e sublime - manobrar metais, madeiras e tímpanos para favorecer o peso do conjunto harmônico. Logo, o “instinto” que guia o maestro brota de uma base teórica sólida - e de uma ampla experiência como instrumentista de regentes do primeiro escalão.

Ninguém se surpreendeu mais do que eu com este CD da Archiv. Seduzido pelos alardes da crítica internacional, experimentei a versão absolutamente dispensável que Minkowski gravou da Sinfonia Fantástica com a Mahler Chamber Orchestra, que granjeou aplausos dos dois lados do Canal da Mancha. Ouvi até sangrar, mas não encontrei uma só virtude que justificasse um entusiasmo que até agora me soa irracional. Não há nada demais na versão. Não há nada substancialmente claro, revelador, flexível ou inflexível. Da primeira à última nota, a desapaixonada marcação de compasso de uma das obras mais delirantes do repertório sinfônico.

Foi por isso que – me sentindo só e na contra-mão do mundo – quis experimentar o Mozart gravado pela Archiv com Minkowski e os instrumentos originais dos seus excelentes Les Musiciens du Louvre, de Grenoble.

A Sinfonia n. 40 é - do princípio ao fim - um modelo de execução. Talvez a mais bonita que já ouvi: lirismo, precisão, clareza, dinâmica, beleza de sonoridades e, acima de tudo, articulação. Considerando a proposta original do regente, perfeita.
Os primeiros compassos da Sinfonia Júpiter são os que ouvia em meus sonhos. A marcação de tempo é segura, afirmativa e marcial. O regente não faz segredo de que deve algo a Toscanini - mas fez melhor. Curiosamente, ao invés de manter o mesmo pulso Minkowski relaxa para tempos um pouco mais amplos, mais “românticos”, que favorecem a nobreza do movimento - mas sem jamais perder a tração, o controle permanente de tudo. Os movimentos internos são mesmo surpreendentes. Sem falsificar o documento, Minkowski descobre possibilidades rítmicas inovadoras na partitura, com marcações de tempo definidas e coerentes. O último movimento é virtuosístico, mas não extrapola para a categoria dos efeitos especiais ou das alegorias e adereços.

No quesito técnico, a gravação da Archiv tem equilíbrio, contraste e beleza de som. Tudo indica que os engenheiros tiveram de lutar contra a reverberação impiedosa de uma sala onde os graves ressoam de maneira indócil. Aqui e ali há uma perda de articulação, mas no geral o resultado é ótimo.

Em resumo, o CD “Mozart: Júpiter” merece a sua audição, enquanto a carreira de Minkowski merece a nossa atenção. Tudo é muito musical – e de modo algum “arrogante”. A princípio, não creio que a perspectiva do maestro tenha muito a acrescentar ao repertório romântico. Mas espero, do fundo do meu coração, que ele se debruce sobre as sinfonias de Haydn. E que a Diapason nos mantenha informados.


holbein menezes
utilizador dedicado
utilizador dedicado

Número de Mensagens : 420
Data de inscrição : 09/06/2008
Pontos/Reputação : 435

Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum